PhD em farmacologia analisa as terapias em teste para Covid-19

PhD em farmacologia analisa as terapias em teste para Covid-19

Em live realizada pelo ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, o professor da instituição, PhD em Farmacologia, Thiago de Melo, (foto), apresentou uma análise epidemiológica da Covid-19 e discorreu sobre a maioria das drogas que estão sendo pesquisadas. Ele destacou as mais promissoras e desmistificou alguns tratamentos apontados como panaceia. O professor enfatizou que, com a pandemia, o farmacêutico ganha destaque como orientador, cabendo a ele o papel de guia aos pacientes.

Na sua explanação, Melo revelou que os estudos clínicos de tratamentos ou vacinas para a Covid-19 deram um salto expressivo nos últimos três meses. “Na primeira vez que falei desse assunto, em março, existiam cerca de 300 estudos clínicos sobre a doença compilados pelo site ClinicTrials.gov. Atualmente (junho), existem mais de 2.600”, afirma o professor.  A compilação do site é feita pela National Library of Medicine (NLM), ligada ao National Institutes of Health (NHI), pertencente ao governo dos Estados Unidos.

O professor comentou que, com a Covid-19, é possível haver uma nova onda de avanço da farmacologia como ocorreu com a Segunda Guerra Mundial. “Esperamos que haja um novo boom agora, relacionado à biologia molecular e imunologia. Agora de forma mais madura e ampla entre os profissionais de saúde, não vinculado apenas à área da infectologia”, diz Melo.

Ele fala também da rapidez com que os estudos avançam. “Algumas coisas que se pensava em março agora já não valem mais. As opiniões caminham ao longo de uma grande pirâmide do conhecimento que vai se formando. Na base, estão os ensaios in vitro, depois os testes em animais até chegar à testagem em humanos. Desde meados de dezembro, quando a Covid-19 explodiu a comunidade científica vem acumulando uma quantidade enorme de dados”, explica Melo. 

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Várias possibilidades de terapia em análise

Um dos estudos que apresentaram resultados práticos é o da dexametasona. Segundo o professor, o uso da substância por pacientes internados, inclusive aqueles sob ventilação mecânica, apresentou benefícios. “É importante considerar que ela não tem efeito antiviral, mas sim para controlar o curso da infecção. Tem ação glicocorticoide, inibindo a produção de citocinas pró-inflamatórias. Mas isso não significa que é para usá-la como profilático em ambiente domiciliar. Isso não faz sentido algum”, diz Melo, lembrando que o uso de medicamentos já conhecidos apresenta outras vantagens. “Além de ser um produto barato, nós já conhecemos os efeitos colaterais, como é o caso da dexametasona. Isso aumenta a segurança na sua utilização”.

Mesmo sendo crítico do uso e da exposição que se fez da cloroquina e da hidroxicloroquina, Melo diz que seus estudos devem continuar. “Essas substâncias são as que mais pesquisas estão em desenvolvimento – 224 ensaios clínicos. Eles devem prosseguir. Mas isso não significa que devemos sair distribuindo por aí. É preciso cautela, pois elas têm muitos efeitos colaterais, principalmente associadas à azitromicina, e sua eficácia contra a Covid-19 não foi comprovada”, afirma Melo, lembrando que o fato de o paper da revista Lancer contra a cloroquina ter sido retirado não quer dizer que ela foi aprovada. “Ter um paper retirado faz parte da ciência, isso já ocorreu e vai continuar acontecendo”.

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Outras classes de medicamentos que têm sido estudados incluem o antiviral remdesivir, que têm 35 estudos clínicos em andamento; a ivermectina, com 26 ensaios sendo feitos; e nitazoxanida, com 13 estudos. Além da dexametasona, que apesar de ter saído primeiro como protetora em uma fase avançada, é a que menos tem estudos clínicos em andamento (12), por enquanto.

“Apesar de estar com menos pesquisas em andamento, a dexametasona é a que apresentou os melhores resultados até agora. Isso não quer dizer que as pesquisas das outras drogas não devam persistir. Nesse quebra-cabeça para encontrar uma solução todas as peças têm a sua importância”, salienta o professor. “A ivermectina vem sendo bastante estudada, inclusive no Brasil. Mas, por enquanto, não foi constatado nenhum efeito positivo da droga contra a Covid-19. O que pode acontecer é que com o aumento do seu uso ficaremos livres de piolhos e sarna”, ironiza Melo, fazendo referência ao uso tradicional da ivermectina. 

Ensaios clínicos sobre o lopinavir-ritonavir foram publicados no New England Journal of Medicine, importante periódico científico. O estudo foi feito com grupo controle, porém sem uso de placebo e sem cegamento. Foram recrutados cerca de 100 pacientes em cada grupo. No editorial, os autores se apresentaram céticos, pois apesar de alguns sinais de melhora clínica, não houve redução da viremia, o que na opinião deles poderia indicar algum viés. “Esse é mais um estudo que foi feito em adultos hospitalizados, mas a conclusão é de o medicamento não fez diferença no tratamento”, explica Melo.

Outro medicamento que vem sendo pesquisado para enfrentar a Covid-19 é a bromexina, usada para tratamento da tosse. “Vale a pena investigar, ela pode ser um inibidor da progressão da doença”, avalia o professor.

A mesma coisa se dá com outras substâncias, como os antioxidantes, que vêm sendo estudados como a n-acetilcisteína, utilizada para soltar o muco em indivíduos com infecções respiratórias e por portadores de doenças mais graves como fibrose cística ou doença pulmonar obstrutiva crônica. “Não imaginaria uma proteção plena da n-acetilcisteína para reverter o quadro grave da Covid-19, mas ela pode ser uma aliada”. O plasma é uma possibilidade que também vem sendo estudada. “É bem provável que dê certo, o problema é a viabilidade disso para chegar à população em geral”, pondera Melo. “Mas tem que investigar”.

A mesma coisa pode se dizer da silimarina e do reveratrol. Outra hipótese inclui a vitamina C associada com azul de metileno, que tem ação redutora, atuando contra a formação de radicais livres, assim como os probióticos e até o mel egípcio. Da área cardiovascular, estão sendo estudados para tratar a Covid-19 os medicamentos bloqueadores AT1, como losartan, valsartan e telmisartan. Até a sildenafil, o famoso Viagra, e a vacina BCG também vêm sendo pesquisados. “Mas não é para sair correndo atrás disso tudo na farmácia para comprar. São investigações ainda. Isso que as pessoas precisam se conscientizar em relação aos estudos”, sublinha Melo.

Papel do farmacêutico

O professor levanta outra questão, a dos medicamentos que foram condenados por supostamente facilitarem o trânsito do vírus. “Três meses atrás se dizia que o ibuprofeno poderia facilitar o aumento da carga viral, e se constatou depois que nenhum estudo provou essa relação”.

Mais um aspecto levantado por Thiago de Melo diz respeito às mudanças no estilo de vida da população. “A questão da obesidade tem que ser levada em conta, assim como a hipertensão e o diabetes. O tecido adiposo do paciente obeso é mais inflamado e resistente à insulina. São fatores de risco que precisam ser controlados para não agravar o quadro dos pacientes com Covid-19”.

Em relação à vacina, Melo é otimista para o futuro, mas não vê que ela seja obtida no curto prazo. “É preciso aguardar os testes, e eles demoram”, diz. Primeiro é preciso saber se a vacina é tóxica, se tem problema de hipersensibilidade. Na fase dois, é avaliado se ela funciona ou não. Nessa etapa o desafio é a exposição da pessoa ao vírus, com todas as implicações éticas associadas. E ainda tem a fase três, que são os estudos multicêntricos. É preciso observar se a vacina funciona em diversas etnias. Já na fase quatro é quando vai se descobrir se existem efeitos colaterais e dependendo dos problemas a vacina pode ser até descartada. “Existem desafios enormes para se obter a vacina, sem contar os gargalos da produção e do custo. Por isso que o reposicionamento de drogas vai margear as conversas nos próximos meses”, acredita o professor.

Com a pandemia, o farmacêutico ganha destaque como orientador, recuperando o papel que teve no passado no atendimento de saúde. “É um retorno às origens da farmácia. Que não é vender Havaianas, queijo ou bateria de carro, mas ser um estabelecimento de saúde, dispensando medicamento na forma correta, evitando as chances de interações medicamentosas e oferecendo segurança aos pacientes”, afirma Melo.

“Nesse momento em que se misturam ciência, economia e política, cabe ao farmacêutico o papel de guia. Ele tem que ter a coragem de dizer ao seu paciente que, mesmo que um medicamento tenha sido prescrito, ele não deve utilizar, tendo em vista seu histórico de saúde. Essa proximidade, além cumprir com a ética, aumentará a fidelidade do cliente à farmácia”, assinala Melo, destacando outro aspecto. “Vivemos a era da informação, tudo está disponível na internet. Cabe ao farmacêutico contribuir para que a informação se torne conhecimento, orientando o leigo sobre o que, de fato, será bom para ele. Este momento pode ser um divisor de águas para a profissão”.

Assista a live completa aqui:

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