Polifarmácia: Atuação Farmacêutica em polimedicados

Os farmacêuticos clínicos irão concordar: é muito comum surgirem pacientes nas farmácias ou consultórios farmacêuticas fazendo uso de diversos medicamentos para o mesmo fim, cujas prescrições foram feitas por profissionais de diferentes unidades de saúde, sejam particulares ou públicas.

Mais comum ainda é o paciente, geralmente portador de doenças crônicas, percorrer diferentes atendimentos de saúde, mas não avisar os médicos sobre as prescrições anteriores, acumulando, dessa forma, receitas com medicamentos de princípios ativos similares ou para combater o mesmo problema.

A atuação do farmacêutico é fundamental nesses casos, mesmo porque ela está amparada pela Resolução 585/13, do Conselho Federal de Farmácia (CFF), que recomenda a ele realizar intervenções com o objetivo auxiliar na seleção, adição, substituição, ajuste ou interrupção da farmacoterapia de um paciente. Além disso, ele pode e deve emitir parecer farmacêutico a outros profissionais da área da saúde, até mesmo com sugestões de desprescrição.

A ação de cessar ou diminuir o uso de alguns medicamentos é um importante auxílio no controle da polifarmácia, devido aos eventos adversos e interações medicamentosas que essa situação pode provocar. Aplicar a desprescrição não é uma tarefa fácil, pois envolve profundo conhecimento clínico e farmacológico.

Segundo o farmacêutico, especialista e analista em gestão de assistência em saúde da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG), dr. Hairton Ayres Azevedo Guimarães, o atendimento clínico na farmácia é fundamental para que o estabelecimento mantenha um serviço clínico para efetuar uma revisão da farmacoterapia com acompanhamento. “A partir desse momento, junto ao paciente, o farmacêutico deve fazer uma carta de encaminhamento ao prescritor relatando as possíveis reações, interações medicamentosas e até mesmo, em alguns casos, mostrar que determinado medicamento é inapropriado”.

O farmacêutico doutor em farmacologia, dr. Niraldo Paulino, acredita que, por mais justificável que seja a coexistência de mais de cinco fármacos em uma prescrição, a polifarmácia nunca é inócua, pois facilita a interação medicamentosa e a dificuldade em manter a adesão ao tratamento. “Diante desse problema, cada vez mais se fala em desprescrição. A preocupação com a polifarmácia e com a própria racionalidade da terapêutica leva à necessidade de tentar tornar as prescrições mais enxutas. Para tanto, a cooperação entre profissionais da saúde e paciente é fundamental”, ressalta ele.

Mesmo problema, diferentes prescrições

O farmacêutico clínico e professor do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, dr. André Schmidt Suaiden, afirma que é recorrente, principalmente entre a população idosa, os pacientes percorrerem diferentes especialidades médicas, agrupando várias classes de medicamentos ao seu histórico farmacológico.

A médica assistente do serviço de geriatria da Faculdade de Medicina da USP, Maria Cristina Guerra Passarelli, comenta no Portal da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia que, nesses casos, a desprescrição deve ser feita por médicos, mas é o farmacêutico quem continua sendo o principal ator dessa prática: “O apoio de farmacêuticos, sugerindo condutas terapêuticas, seja por meio de diálogo com o prescritor ou por intermédio do paciente, pode somar esforços a fim de minimizar interações indesejáveis e reações adversas. As intervenções podem variar desde modificação das doses, substituição, eliminação ou até mesmo inclusão de fármacos à prescrição médica”.

E foi exatamente isso que Suaiden fez durante um atendimento a uma idosa, de São Paulo (SP). Ele conta que essa paciente, de 70 anos, já havia passado por diversos médicos e relatava que ninguém conseguia estabilizar sua pressão arterial. Por conta disso, ela esteve em duas Unidades Básicas de Saúde (UBS) diferentes na cidade.

“Ela estava insatisfeita, por isso me procurou na farmácia, localizada em um bairro paulistano, acreditando que havia um médico em atendimento. Esse estabelecimento havia se tornado referência, na região, pelo atendimento farmacêutico à população da comunidade”, lembra Suaiden.

Depois de entender que o local mantinha um atendimento farmacêutico clínico, a idosa relatou o seu problema a Suaiden, que era o responsável pelo serviço na farmácia.

Naquela primeira consulta, o farmacêutico solicitou que ela trouxesse a ele, em outro horário agendado, os resultados dos exames que possuía, as receitas médicas e também os medicamentos que utilizava. No dia agendado de sua consulta, ela compareceu à farmácia portando os documentos solicitados pelo farmacêutico.

Durante a anamnese, a paciente relatou que apresentava sono excessivo. Suaiden percebeu que ela estava tomando os medicamentos de forma errônea, e que havia medicamentos desnecessários. Além disso, havia sinergismo de medicação: atenolol 50mg (2 vezes ao dia) e propranolol 40mg (2 vezes ao dia).

“Analisando as receitas, eu constatei que, além de outros medicamentos, o médico de uma UBS havia prescrito atenolol. Já o médico de outra UBS havia prescrito propranolol, que são medicamentos da mesma classe farmacológica. E ela utilizava todos os medicamentos. Somado a tudo isso, a paciente era analfabeta e não tinha condições de interpretar as prescrições”, lamenta Suaiden.

No processo de semiologia, foi verificada a pressão arterial, a glicemia e o colesterol da paciente. Assim, independentemente da prescrição, foi solicitado que ela passasse uma vez por semana na farmácia para acompanhamento.

Polifarmácia

Frente aos fatos, Suaiden constatou que ela tomava muitos medicamentos para a hipertensão: além do atenolol e do propranolol mencionados, ela ainda utilizava enalapril 20 mg e hidroclorotiazida 25mg. Para o diabetes usava metformina 850 mg (2 vezes ao dia) e glibenclamida 5mg.

“Baseado nas Diretrizes Brasileiras de Hipertensão e de Diabetes, eu fiz um documento e o levei pessoalmente às duas UBSs visitadas pela idosa, explicando aos prescritores a situação dela e os medicamentos que ela fazia uso. Assim, segundo essas diretrizes, eu sugeri a troca e a retirada de alguns medicamentos”, destaca Suaiden. 

Após as conversas com os médicos das UBSs, eles acataram a sugestão do farmacêutico clínico e prescreveram os itens sugeridos por ele.

Na farmácia, em consulta posterior, foram retidos os medicamentos que a idosa não deveria mais utilizar. Suaiden fez uma tabela com cores e imagens indicando quais medicamentos usar e quando ela deveria usá-los. Assim, ela levava semanalmente seus medicamentos para que fosse organizada uma caixa e uma tabela com os direcionamentos de utilização de forma visual e didática. Isso foi feito por três semanas. Naquelas consultas, também, era feita a mensuração de sua pressão arterial e outros parâmetros.

Assim, após o período de controle de três semanas, a paciente apresentou sua pressão arterial satisfatória e não relatava mais o problema de sonolência excessiva. Naquele momento, ela recebeu alta farmacêutica, segundo Suaiden.

“Realmente, pacientes idosos ou analfabetos costumam errar nas doses ou nas tomadas de medicamentos. Assim, agiu bem o dr. Suaiden na desprescrição e em fazer uma tabela com imagens e cores para que a paciente pudesse tomar a medicação corretamente”, afirmou o gastroenterologia da Unidade Básica de Saúde, em São Paulo (SP), Omar Ismael.

Maria Cristina afirma que há, na literatura, considerável evidência do alto risco de eventos adversos associados à polifarmácia em idosos. Desde que se faça avaliação adequada e monitorização criteriosa, a taxa de desprescrição segura de anti-hipertensivos, psicotrópicos e benzodiazepínicos tem variado de 20% até 100% sem quaisquer complicações. “Outro achado descrito é a redução do risco de quedas e a melhora cognitiva e funcional após a suspensão de medicamentos de ação no sistema nervoso central. Em populações de pacientes demenciados, a retirada de antipsicóticos de uso contínuo foi reportada como segura em até 80% dos idosos avaliados. Ainda, em um estudo observacional, a interrupção de agentes anti-hipertensivos mostrou associação com menos eventos cardiovasculares e óbito em um período de cinco anos de seguimento”, finaliza.

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