O infarto deixou de ser um evento raro entre adultos jovens, e isso muda a responsabilidade de quem está na linha de frente do cuidado. Dados do Ministério da Saúde, compilados pela Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), indicam que as internações por infarto em pessoas com menos de 40 anos aumentaram 150% entre 2000 e 2024, passando de dois para cinco casos a cada 100 mil habitantes.
No recorte da última década, o Ministério da Saúde aponta que os registros de infarto em menores de 40 anos teriam passado de 5 mil, em 2013, para 15 mil, em 2023.
Para o farmacêutico clínico esportivo e professor do ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, PhD José Henrique Bomfim, o avanço do problema está ligado a uma combinação perigosa de hábitos de vida e consumo de substâncias que circulam com facilidade no varejo e no mercado paralelo, muitas vezes sem avaliação clínica.
Esse cenário reposiciona a farmácia como um ponto de triagem, orientação e encaminhamento. Dessa forma, o farmacêutico pode reconhecer sinais, investigar riscos, interromper condutas perigosas e direcionar rapidamente para acompanhamento médico, quando necessário.
Quando o risco é jovem, a triagem precisa ser objetiva
“O balcão não é o melhor lugar para o farmacêutico identificar essas coisas. Qualquer consulta é feita em consultório, por isso não importa se você está em consultório farmacêutico. O que a gente tem disponível em ponto de atendimento são sinais e, principalmente, as perguntas”.
Segundo o professor do ICTQ, o primeiro filtro costuma ser visível: “Sobrepeso, obesidade. Em mulher, se o sobrepeso estiver associado a alopecia, dificuldade na marcha, dificuldade na respiração, fadiga”. Ele acrescenta que detalhes circulatórios também podem chamar atenção, quando o paciente está disponível para observação: “Vascularização nos pés, nas mãos, no nariz. Pele mais brilhante, mais desidratada, esticada. Queixa de dor nos membros”.
Para Bomfim, o eixo central está no roteiro básico de investigação: “Pratica atividade física com regularidade, como é a alimentação, como está o sono. E sempre perguntar sobre história familiar. Existe alguém na família que teve algum problema no coração, alguma cardiopatia?”. Ainda assim, ele alerta para o risco: “Infarto geralmente pode ser bem silencioso”.
Termogênicos, estimulantes e o mercado paralelo
“O que eu vejo de forma mais preocupante é o uso de produtos sem nenhum tipo de controle adequado, uso inadequado de suplementos à base de cafeína, exagero com bebidas energéticas e tentar copiar influenciadores com termogênicos para queima de gordura”.
Ele aponta um padrão recorrente: “Beta-adrenérgicos, medicamentos usados para asma, comprar produto por plataforma, e até substância para uso veterinário. Isso é o mais preocupante”. Para o professor, a promessa de emagrecimento costuma ser o gatilho: “Emagrecedores e termogênicos: termogênese não quer dizer emagrecer. Quer dizer gerar calor para cuidar da nossa vida”.
Bomfim também chama a atenção para a banalização do termo ‘protocolo’: “Quando alguém chama de protocolo, é porque protocolo é o nome que o ‘leigo’ usa”. Na prática, isso pode esconder associações e doses sem rastreabilidade, inclusive com produtos importados e substâncias com regras diferentes em outros países.
Vape: dependência invisível e tratamento possível
“Nicotina em altas concentrações. A primeira coisa é saber se tem dependência. Se há dependência, o foco é eliminá-la”. Para Bomfim, o ponto crítico nos dispositivos eletrônicos é a dose e a frequência: “A concentração de nicotina nesses vapes é gigantesca. E a questão é o quanto os usuários o utilizam. Eles não percebem”.
No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe a fabricação, comercialização, importação, distribuição e propaganda dos dispositivos eletrônicos para fumar desde 2009, e reforçou a manutenção da proibição em norma mais recente.
Do ponto de vista do cuidado, o professor do ICTQ defende uma linha estruturada, com o uso dos adesivos e a goma de nicotina para reduzir a dependência e, se necessário, medicamento.
Receba nossas notícias por e-mail: Cadastre aqui seu endereço eletrônico para receber nossas matérias diariamente
No Sistema Único de Saúde (SUS), o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) de Tabagismo prevê terapia de reposição de nicotina, incluindo a combinação de formas de liberação lenta e rápida, e detalha o uso de farmacoterapia quando indicada.
Uma nota técnica conjunta do Ministério da Saúde, do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA) e da Anvisa também ressalta que os cigarros eletrônicos, em sua maioria, contêm nicotina e outras substâncias potencialmente tóxicas, e reforça a necessidade de orientar intervenções de cessação.
Esteroides: o sangue engrossa e o risco acelera
“Associações de esteroides não fazem sentido nenhum. Por mais que se fale em ciclo de anabolizantes, se você não é atleta, isso não faz sentido”. Para Bomfim, um marcador que exige atenção é o hematócrito: “o aumento dos hematócritos vai aumentar o risco do infarto. A pessoa fica muito vermelha. Apesar de ter muito oxigênio, o sangue está muito viscoso e a pessoa fica mais ofegante”.
Ele descreve o impacto da viscosidade no sistema microcirculatório: “Quando chega no capilar, pode gerar pequenas obstruções, pequenas hipóxias. No sistema nervoso pode dar um apagão”. E reforça: “O problema maior é o risco cardiovascular”.
Entidades cardiológicas no Brasil vêm alertando para danos cardiovasculares associados ao uso de esteroides anabolizantes e similares, citando efeitos como hipertensão, dislipidemia, arritmias e alterações estruturais do coração. Em paralelo, comunicados que repercutem alertas de sociedades médicas também descrevem mudanças negativas no perfil lipídico e aumento de risco cardiovascular com uso indiscriminado, especialmente entre jovens.
Capacitação farmacêutica
Para quem deseja se capacitar e atuar em Farmácia Clínica, o ICTQ oferece alguns cursos de pós-graduação que devem interessar:
- Farmácia Clínica e Prescrição Farmacêutica
- Farmácia Clínica em Unidade de Terapia Intensiva
- Farmácia Clínica em Cardiologia
- Farmácia Clínica e Atenção Farmacêutica
- Farmácia Clínica de Endocrinologia e Metabologia
Participe também: Grupo de WhatsApp e telefarmacêuticas diariamentegram para receber notícias




