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"Cloroquina não tem efeito colateral" afirma Bolsonaro

Wandy Ribeiro   27 Março 2020   79010   Política Farmacêutica
"Cloroquina não tem efeito colateral" afirma Bolsonaro

Durante transmissão ao vivo pela internet, na última quinta-feira (26/03), o presidente da República, Jair Bolsonaro, defendeu o uso da hidroxicloroquina e cloroquina no combate ao novo coronavírus (Covid-19). No pronunciamento, mesmo contrariando o que diz a bula do próprio medicamento, o governante afirmou que o fármaco não tem efeitos colaterais.

“Aplica logo, pô”, disse Bolsonaro. “Sabe quando esse remédio começou a ser produzido no Brasil? Ele começou a ser usado no Brasil quando eu nasci, em 1955. Medicado corretamente, não tem efeito colateral”, disse o presidente.

Vale ressaltar que, apesar da declaração do Bolsonaro, a bula do medicamento explica que o uso da substância apresenta efeitos colaterais comuns em muitos pacientes, como, por exemplo: cefaleia, irritação do trato gastrointestinal, distúrbios visuais e urticária, entre outras reações adversas. As orientações ainda explicam que doses diárias altas podem resultar em retinopatia e ototoxicidade irreversíveis.

Leia também: Automedicação de cloroquina explode no Brasil

Muitos especialistas também alertam para o uso inadequado do produto. Por meio de um vídeo publicado nas redes sociais, o vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP), Marcelo Polacow, falou sobre a hidroxicloroquina e alertou sobre os riscos da automedicação: "São necessários mais testes para que seja feita a indicação clínica. O FDA acabou de liberar esses testes nos pacientes com o novo coronavírus, porém, esse medicamento é um produto tarjado como todos os outros tarjados. Necessita de receita médica e não pode ser vendido sem prescrição".

O farmacêutico ainda completou: "Esse medicamento precisa ser prescrito na dosagem correta, no tempo correto, além disso, esse produto pode ser extremamente perigoso [se utilizado da forma incorreta], não pode ser usado por gestante, pode causar comprometimento cardíaco e distúrbio ocular, podendo levar até a cegueira. Infelizmente, eu recebi informações que muitos pacientes estão comprando e vão fazer uso como automedicação”.

Polacow ainda fez uma recomendação: "Eu ressalto aos meus colegas farmacêuticos que não vendam esse produto sem receita médica, e peço que orientem o paciente sobre a forma correta de usar, quando houver prescrição médica, e realmente tiver indicação para isso [tratamento do novo coronvírus]".

Órgãos responsáveis pelo controle de medicamentos em território nacional também já se manifestaram em relação ao uso da hidroxicloroquina. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) lançou uma nota técnica sobre o assunto, ressaltando os riscos da automedicação:

 “Apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos [hidroxicloroquina e cloroquina] para o tratamento da Covid-19. Assim, não há recomendação da Anvisa, no momento, para o uso em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação. Ressaltamos que a automedicação pode representar um grave risco à sua saúde”.

Outras polêmicas

Durante uma entrevista em frente ao Palácio da Alvorada, residência oficial da presidência da República, Bolsonaro também ironizou o uso da cloroquina. Na ocasião, o presidente ofereceu o medicamento aos jornalistas, chamando a atenção para a comercialização clandestina do produto.

"Ouvi dizer que está custando um pau (R$ 1 mil) cada um. Alguém vai comprar aí? Tô fazendo negócio! Se alguém precisar a gente conversa", disse o presidente, que possuía duas caixas do medicamento na mão.

Ainda na ocasião, Bolsonaro fez declarações sobre a imunidade da população: “O brasileiro tem que ser estudado. Ele não pega nada. Você vê o cara pulando em esgoto ali, sai, mergulha, tá certo? E não acontece nada com ele. Eu acho até que muita gente já foi infectada no Brasil, há poucas semanas ou meses, e eles já têm anticorpos que ajudam a não proliferar isso daí", opinou o presidente.

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