Saiba como funciona o primeiro medicamento para combater a Covid-19

Bamlanivimab: saiba como funciona o 1º medicamento criado para combater a Covid-19

Aprovado em uso emergencial pela Food and Drug Administration (FDA), órgão que regula alimentos e medicamentos nos Estados Unidos, o bamlanivimab é uma terapia baseada em anticorpos monoclonais. Artigo de dois pesquisadores europeus publicado na revista The Conversation e na Época explica como funciona o tratamento e se ele é uma esperança concreta contra a doença.

A FDA emitiu recentemente Autorização de Uso de Emergência do bamlanivimab para o tratamento de Covid-19 de intensidade leve a moderada em pacientes adultos e pediátricos que não foram hospitalizados. Esse agente terapêutico, desenvolvido pelo laboratório Eli Lilly, é um anticorpo monoclonal semelhante aos que faziam parte do coquetel de medicamentos que foi administrado ao presidente dos EUA, Donald Trump, quando estava com a Covid-19.

Francisco López-Muñoz, professor de farmacologia e vice-reitor de pesquisa e ciência da Universidade Camilo José Cela (Madri, Espanha), e José Antonio Guerra Guirao, professor de farmacologia e toxicologia da Universidade Complutense de Madri, esclarecem como se desenvolve a terapia com o novo medicamento.

Anticorpos são grandes proteínas que constituem o sistema imunológico necessário para identificar e neutralizar objetos estranhos ao corpo, como bactérias e vírus. “No caso específico dos anticorpos monoclonais (mAbs), eles são glicoproteínas produzidas pelo clone de uma célula híbrida – criada a partir da fusão de uma única célula-tronco do sistema imunológico com uma célula plasmática tumoral – e projetados para atacar um antígeno específico”, relatam os professores.

Sua produção é baseada no estabelecimento de linfócitos B imortais modificados para produzir uma imunoglobulina específica. “Dependendo do nível de pureza da imunoglobulina, ela pode ser totalmente murina, quimérica, humanizada ou totalmente humana. Os anticorpos monoclonais são cuidadosamente selecionados e direcionados contra uma molécula específica que desempenha um papel fundamental no processo de uma doença, e eles são frequentemente usados para tratar certas doenças, como câncer ou artrite reumatoide”, explicam.

Os professores destacam no artigo o papel dos anticorpos neutralizantes, que são uma das possíveis defesas do sistema imunológico contra infecções. “Esses anticorpos permitem neutralizar e eliminar o efeito dos microrganismos invasores, e sua atividade é desencadeada, por exemplo, por proteínas localizadas na superfície dos vírus, às quais se ligam para ‘bloquear’ a infecção”.

Nesse sentido, segundo eles, a comunidade científica estuda há algum tempo se a resposta defensiva por meio de anticorpos neutralizantes pode induzir imunidade eficaz e duradoura. E, mais especificamente, está investigando se os anticorpos gerados por pacientes que estiveram em contato com o novo coronavírus (SARS-CoV-2) poderiam ser usados como base em novos tratamentos para Covid-19.

“Embora os anticorpos neutralizantes sejam gerados quando uma pessoa sofre uma infecção e eles pareçam desempenhar um papel importante na resposta imune, seu papel específico nas engrenagens da Covid-19 não está totalmente elucidado”, observam López-Muñoz e Guerra Guirao.

Os estudos realizados até agora com o vírus SARS-CoV-2 indicam que os anticorpos neutralizantes aparecem cerca de duas semanas após o início da infecção, e que seu pico máximo de atividade seria entre a quarta e a sexta semanas.

Mas ainda existem muitas questões em aberto, segundo os professores. Por exemplo, não foi confirmado se todos os pacientes infectados geram anticorpos neutralizantes ou quais fatores determinam sua aparência e atividade (idade do paciente, gravidade da infecção). Nem se seus níveis de neutralização são sempre suficientes para conferir proteção, uma vez que esses níveis são altamente variáveis e não são detectados em 10-30% dos pacientes.

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O papel do bamlanivimab

O bamlanivimab é um anticorpo monoclonal IgG1-kappa humano recombinante neutralizante contra a proteína Spike do vírus Sars-CoV-2 e não é modificado na região Fc. Esse agente é licenciado para o tratamento de pacientes com teste positivo para Sars-CoV-2 que têm 12 anos de idade ou mais e pesam pelo menos 40 kg e que apresentam alto risco de progredir para Covid-19 grave ou hospitalização.

Isso inclui os pacientes com 65 anos de idade ou mais, ou que tenham certas condições médicas crônicas. O bamlanivimab é um medicamento que deve ser aplicado por via intravenosa, portanto os pacientes devem ir a um hospital para que ele seja administrado.

“Embora a segurança e a eficácia dessa terapia experimental continuem a ser avaliadas, os ensaios clínicos confirmaram que o bamlanivimab, em comparação com o placebo, reduz as hospitalizações relacionadas à Covid-19 ou as visitas à emergência em pacientes com alto risco de progressão da doença em até 28 dias após o início do tratamento. Por esse motivo, seu uso é recomendado nas fases iniciais da doença, idealmente nos primeiros 10 dias após o início dos sintomas da doença”, salientam os professores.

Porém, eles advertem que o bamlanivimab não está autorizado no caso de pacientes hospitalizados por Covid-19 ou que necessitem de oxigenoterapia, uma vez que um benefício significativo do tratamento com este anticorpo monoclonal não foi demonstrado em pacientes hospitalizados com Covid-19. “De fato, mAbs como bamlanivimab podem estar associados a piores desfechos clínicos quando administrados a pacientes hospitalizados com Covid-19 que requerem oxigênio de alto fluxo ou ventilação mecânica”, frisam.

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No que se refere ao perfil de segurança, os efeitos adversos dos mAbs, em geral, podem ser agrupados em dois tipos diferentes – os derivados da ação do anticorpo, como infecções oportunistas, infecções comuns ou desenvolvimento de fenômenos autoimunes; e aqueles oriundos da administração de proteínas – reações anafiláticas, síndrome de liberação de citocinas e desenvolvimento de anticorpos. No caso específico do bamlanivimab, as reações adversas mais frequentemente relatadas ao FDA foram náusea, tontura, dor de cabeça, prurido, hipersensibilidade imediata não grave, diarreia e vômito.

Segundo López-Muñoz e Guerra Guirao, o bamlanivimab constitui novo instrumento terapêutico no combate à Covid-19 que satisfaz uma necessidade médica não atendida, na medida em que o benefício para a saúde pública de sua disponibilidade imediata é maior do que a incerteza derivada dos limitados dados clínicos disponíveis.

Contudo, eles observam que o laboratório responsável pelo desenvolvimento, Eli Lilly, deve se comprometer a fornecer mais dados clínicos para complementar as informações sobre a eficácia e a segurança do medicamento, à medida que os resultados dos ensaios clínicos em andamento são obtidos. “E apenas diante de resultados positivos, uma autorização plena e definitiva deve ser concedida, caso contrário o medicamento tem que ser retirado do mercado”, assinalam.

Apesar da advertência, os professores se mostram otimistas com o tratamento. “O bamlanivimab abre uma nova e promissora janela na terapia de Covid-19. Portanto, ao contrário de outros medicamentos disponíveis no mercado para outras doenças e que têm demonstrado alguma eficácia nesta patologia (remdesivir, plitidepsina, dexametasona, hidroxicloroquina), este é o primeiro medicamento especificamente desenvolvido e autorizado para o tratamento de pacientes com Covid-19”, concluem.

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