Tratamento injetável de longa duração para HIV mantém vírus indetectável

Tratamento injetável de longa duração para HIV mantém vírus indetectável

Aprovado no Canadá e agora na União Europeia, o tratamento do HIV com antirretrovirais injetáveis de longa duração obteve a mesma eficácia terapêutica do que o esquema clássico, que utiliza comprimidos diários, revelou o médico infectologista e colunista do Uol Rico Vasconcelos. A vantagem do novo sistema é o paciente não precisar tomar medicamentos diariamente.

Os dois antirretrovirais utilizados nesse novo esquema são o Cabotegravir e a Rilpivirina, drogas que devem ser administradas por via intramuscular a cada um ou dois meses para que sejam mantidos seus níveis terapêuticos entre as injeções. A nova proposta foi avaliada em uma série de ensaios clínicos que compararam a sua eficácia terapêutica com a do esquema clássico, que utiliza comprimidos diários.

No mais recente estudo, publicado em 2020, foram recrutados 618 indivíduos com o HIV indetectável em tratamento regular habitual. Depois de incluídos no estudo, foram sorteados para trocarem o tratamento para o injetável ou seguirem com os comprimidos. O acompanhamento dos dois grupos mostrou que, independente do tratamento realizado, a porcentagem de indivíduos com a carga viral indetectável se manteve estável e semelhante. Não importando também se as injeções eram aplicadas a cada um ou dois meses.

Segundo Rico Vasconcelos, a decisão da União Europeia é “um marco na história do tratamento do HIV/Aids e inaugura uma nova era na vida das pessoas que vivem com esse vírus. Uma vida sem comprimidos”. Até que uma cura tenha sido desenvolvida e esteja disponível, “a melhor proposta de saúde para uma pessoa que vive com HIV é manter sua carga viral indetectável com o uso de antirretrovirais”, aponta o médico, que é coordenador do ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da USP.

Nesse caso, a diversificação das opções terapêuticas é um excelente caminho para adaptar o tratamento aos diferentes contextos de vida. “Comprimidos podem ser uma boa opção para alguns, assim como injeções podem ser para outros. Só não podemos achar que todas as pessoas são iguais e nem desconsiderar as peculiaridades de cada um”, salienta Vasconcelos.

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O principal efeito colateral do esquema foi a dor no local das injeções, relatada por 83% dos participantes que as receberam. Em 99% das vezes, a dor foi classificada como leve ou moderada, durando em média 3 dias. Apenas 1% dos participantes que reportaram esse sintoma optou, por causa dele, por interromper o tratamento injetável.

Segundo Vasconcelos, mesmo com essas reações relacionadas com as injeções, ao fim de um ano de acompanhamento, 86% dos participantes continuavam preferindo esse esquema ao com comprimidos diários, demonstrando sua elevada aceitabilidade.

O médico critica a ausência do País nesse esquema. “No Brasil, não existe ainda a discussão da incorporação dessa tecnologia. Para que isso se torne um dia uma realidade aqui, além do registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), precisaríamos também de uma análise da operacionalização do uso da terapia antirretroviral injetável no nosso sistema público de saúde, inclusive com a avaliação de custo-efetividade”, diz, lembrando que a decisão europeia é “um passo importante e que pressiona o Ministério da Saúde a começar a pensar nesse assunto”.

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