O que Drauzio Varella está falando sobre o farmacêutico

O que Drauzio Varella fala sobre o farmacêutico

No sistema público de saúde, a orientação e o acompanhamento dos doentes são funções essenciais do farmacêutico. É esse profissional que tem a oportunidade de manter contato constante com os pacientes, especialmente aqueles com problemas crônicos, que têm de ir à farmácia para buscar ou comprar seus medicamentos todos os meses.

Essa é opinião do médico oncologista, cientista e escritor brasileiro, Drauzio Varella, um dos pioneiros no tratamento de HIV/Aids. Na Rede Globo, ele participou de séries sobre o corpo humano, primeiros socorros, gravidez, combate ao tabagismo, planejamento familiar, transplantes, entre outros, tornando-se uma das maiores referências de saúde da população brasileira.

Varella falou, com exclusividade, para o ICTQ – Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico, contemplando uma análise situacional da saúde no Brasil, com ênfase no atendimento da população pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Ele fez um retrospecto da evolução da saúde e de como os brasileiros têm enfrentado os graves problemas de atendimento no SUS, e como eles poderiam ser minimizados pela atuação mais efetiva do farmacêutico.

Claro que o Brasil tem um histórico sombrio nesse campo, tendo já enfrentado, no passado, sérios problemas de malária, doença de chagas, filariose e desnutrição: “Havia fome no Brasil, e eu não estou falando do Brasil remoto, mas da cidade de São Paulo. No Hospital das Clínicas, na pediatria, nós tínhamos uma enfermaria exclusiva para desnutridos. São Paulo recebia um grande número de imigrantes que vinham, especialmente, do Nordeste, mas também do interior do Estado e de Minas Gerais e Paraná. Eles chagavam e iam se acumulando na periferia da cidade”. No final dos anos 1960, São Paulo crescia 300 mil habitantes por ano a cada três anos. Com isso, aumentava, praticamente, um milhão de pessoas vivendo na cidade, em condições muito precárias.

O mesmo acontecia em todo o Brasil: as pessoas que trabalhavam com carteira assinada tinham direito ao atendimento no Instituto Nacional de Previdência Social, o antigo INPS. Os demais trabalhadores informais, as mulheres que não tinham maridos dependentes no INPS e toda a população rural do Brasil (que era mais da metade da população brasileira) não tinham direito a atendimento. Eram dependentes da caridade pública, a maioria tratada nas Santas Casas de Misericórdia, espalhadas pelo País.

Drauzio relembra que, em 1988, a nova Constituição estabeleceu a saúde para toda a população, afirmando que a saúde é um dever do Estado e um direito do cidadão.

“Colocaram na Constituição, mas não disseram de onde viria o dinheiro...e não poderiam dizer mesmo, porque não existia esse dinheiro para a criação do SUS. O sistema é que forçou a alocação de verbas para que pudesse começar a funcionar. Assim, surgiu essa péssima fama, com prontos-socorros lotados, com gente sofrendo, sem atendimento, uma bagunça. É essa imagem que fica do SUS. No entanto, não há nenhum país no mundo, com mais de cem milhões de habitantes, que tenha ousado oferecer saúde pública gratuita para todos”, ressalta o médico.

Varella acredita, no entanto, que se o serviço de saúde fosse bem organizado, 90% daquelas pessoas que sofrem nas filas à espera de atendimento, não estariam naquele local. Por exemplo, alguém com dor de garganta vai à unidade básica de saúde (UBS) e não encontra médico. Só há uma consulta disponível para dez dias adiante. Obviamente, não é possível esperar tanto tempo. Então, a pessoa se dirige ao pronto-socorro, por exemplo, do Hospital das Clínicas, e fica aguardando atendimento para sua dor de garganta.

Naquele momento, chega alguém politraumatizado ou com um problema mais sério de saúde, ocupando todos os médicos disponíveis. Por outro lado, os médicos também passam a atender aos pacientes que poderiam ter sido tratados na origem, na UBS.

Ilhas de excelência

Apesar desse cenário, o sistema de saúde pública brasileiro possui algumas ilhas de excelência, às quais poucas pessoas dão o devido valor, e que se configuram como importantes pontos positivos. Um exemplo é um dos maiores programas de vacinações gratuitas do mundo. Há, aqui, também o maior programa de transplantes, no Hospital do Rim, com mais de 900 transplantados por ano.

Outro exemplo é o programa de HIV/Aids brasileiro, considerado o mais importante do mundo, com tratamento gratuito e distribuição de medicamentos. Para se ter uma ideia da importância do projeto, basta citar que, em 1996, havia no Brasil a mesma prevalência do HIV da África do Sul. Sem um programa consistente, a África do Sul já está com 10% da sua população adulta infectada. Se o Brasil tivesse a mesma prevalência, haveria entre 18 milhões ou 19 milhões de brasileiros HIV positivo. A prevalência por aqui é de 800 mil pessoas.

Para Varella, o desafio da saúde gratuita para 210 milhões de habitantes é enorme, e não são 210 milhões quaisquer, é uma população que envelhece. Nesses 30 anos de SUS foi construído um sistema que tinha tudo para funcionar, principalmente, com a atenção básica, o programa saúde da família e os agentes comunitários. Seria só fazer isso funcionar direito. Como o sistema não funciona, o projeto é desarticulado e o gargalo surge nos hospitais.

Controle e acompanhamento

O médico revela que a função do farmacêutico é primordial nos dias atuais, principalmente, porque a população brasileira, na faixa acima dos 60 anos, é a que mais cresce.

Essa parcela tem, geralmente, diabetes, pressão alta ou ambos. Essas são as duas maiores epidemias brasileiras. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia estima que existam 15 milhões de diabéticos no Brasil. Com hipertensão está a metade da população brasileira acima dos 60 anos. Essas doenças são graves e evoluem para o ataque cardíaco, o acidente vascular cerebral (AVC), a cegueira, a hemodiálise etc. Isso causa sobrecarga para o serviço de saúde pública, o que não é suportável pelo SUS e nem pela saúde suplementar e os planos de saúde.

“Como nós vamos tratar essas pessoas todas com doenças graves com atendimento hospitalar cada vez mais caro, já que a medicina é o único ramo de atividade em que a incorporação de tecnologia aumenta os custos do produto final?”, indaga o médico. 

Quem paga a conta

A vida moderna não proporciona tempo para o indivíduo se cuidar. O primeiro problema é a vida sedentária, já que o ser humano se estruturou para ganhar a vida sentado. As pessoas apenas comem e se sentam...a consequência disso é a obesidade. No Brasil, 52% da população adulta têm excesso de peso, sendo que 20% já caíram na faixa de obesidade. “O governo federal investe no Brasil R$ 180 bilhões na saúde.  Mas não é com dinheiro que se resolve o problema da saúde pública. É evitando que as pessoas fiquem doentes. Envelhecimento não é igual a adoecimento. Nós temos que fazer esses controles para a população viver com saúde e por mais tempo, não só por uma questão de humanidade, mas também por uma questão financeira, porque cada vez que alguém fica doente, todos vão pagar a conta”, alerta Varella.

Atualmente, há a obrigatoriedade de ter um farmacêutico em cada farmácia. Esses profissionais frequentam a faculdade por cinco anos, mas acabam restritos ao trabalho burocrático. Essa função burocrática não deveria ser para um profissional com essa formação. 

No caso de uma pressão alta, o paciente vai ao consultório e o médico receita um medicamento para controlar sua pressão. Ele fica um ano e meio sem voltar. Quem irá fazer esse controle? É um farmacêutico, já que todo mês ele vai comprar o medicamento na farmácia ou buscá-lo, gratuitamente, no SUS.

“No momento, essa é uma oportunidade que não poderia ser perdida. Na situação ideal, o farmacêutico discutiria com o médico, explicando que essa medicação não está dando certo ou que está dando efeitos colaterais, já que, quando há efeitos colaterais o paciente para de tomar o medicamento”, comenta ele.

Para fazer essa vigilância, que é absolutamente fundamental, principalmente nos polimedicados, entra a função do farmacêutico clínico, que tem um impacto importante na saúde pública.

“O farmacêutico clínico deve estar em contato com o paciente. Eu tenho 50 anos de experiência em oncologia e, sem esse profissional não dá para trabalhar. Para isso, os farmacêuticos devem se especializar. Eu não entendo como as redes de farmácia ainda não perceberam isso. A orientação e acompanhamento é função do farmacêutico”, afirma o médico.

Par ele, um sistema de saúde que não usa a expertise do farmacêutico tem falhas muito graves na sua organização. “Vocês, farmacêuticos, devem pensar sempre que o ser humano é o centro da nossa atenção. É o paciente que precisa de sua orientação e de esclarecimento”, defende ele.

O que Varella pensa sobre o farmacêutico

Para conhecer mais a fundo algumas de suas ideias, o jornalismo do ICTQ fez uma entrevista exclusiva com Drauzio Varella, que pode ser apreciada a seguir.

ICTQ - Quais são os principais problemas de saúde pública com os quais os farmacêuticos têm que enfrentar atualmente?

Drauzio Varella  - A pergunta mais fácil de responder seria ao contrário, ou seja, quais são os problemas de saúde em que eles não podem atuar ou que não estejam envolvidos! Nós temos uma organização do Sistema Único de Saúde, do SUS, que não pode prescindir de farmacêuticos em todas as áreas. Além disso, nós temos a indústria que depende dos farmacêuticos em diversos setores. Eu vejo a profissão com uma abertura muito grande. Aquela imagem do farmacêutico atrás do balcão da farmácia é coisa do passado. É uma carreira hoje com muitas possibilidades.

ICTQ - Como o senhor vê a atuação do farmacêutico no contexto do SUS?

Drauzio Varella  - O SUS é o maior sistema de saúde pública do mundo. Nenhum país com as dimensões do Brasil tem condição, ou já ousou, oferecer saúde gratuita para todos. E o farmacêutico está envolvido em várias fases desse processo, seja na dispensação de medicamentos ou no controle. Ele é muito mal utilizado dentro do sistema, esse é o problema todo. 

ICTQ - Isso acontece em todo o País?

DrauzioVarella – Sim. Há locais, também no interior do Brasil, em que há só uma farmácia, e há também um farmacêutico lá, que acaba virando um dispensador de medicamentos. Ele não está integrado no sistema. O farmacêutico é quem está em contato direto com o público. Há os hipertensos e pessoas com diabetes que vão até a farmácia para comprar o medicamento. O contato deles com o farmacêutico, na verdade, é maior do que o contato que eles têm com os médicos, e, às vezes, até com os próprios agentes de saúde. Não tem sentido deixar de usar os conhecimentos desses profissionais tão preparados nessa área.

ICTQ - Como, então, eles poderiam ser mais bem utilizados nesse contexto?

Drauzio Varella – Basicamente nos controles. Por exemplo, eu prescrevo um medicamento para a pressão alta para um doente. Eu receito aquele medicamento que tem mais chances de reduzir sua pressão, baseado em evidências, mas isso não é obrigatório. Para um doente, o medicamento funciona muito bem, e para outro não. E aquele paciente usa o remédio e fica certo de que ele está fazendo o tratamento correto, só que ele não está controlando sua pressão arterial.

No entanto, ele vai à farmácia pegar o remédio pelo programa estatal, pelo SUS, programa governamental ou ele vai à farmácia comprar o medicamento...e ele faz isso todos os meses, ou pelo menos uma vez por mês. Quem é a pessoa mais adequada para fazer esse controle? O farmacêutico, e não o médico.  E também não é a enfermeira, porque seu contato com a enfermagem também é irregular. 

Com o farmacêutico ele tem contato todo mês. Acabou aquela caixinha, ele vai comprar outra. O farmacêutico é a pessoa que tem que estar ali com ele, avisando que ele tem que fazer os controles, e anotar de forma padronizada, com o dia, a hora e o valor da pressão. Tem que fazer isso duas ou três vezes por semana, ou todos os dias nos casos mais graves.

Claro que o farmacêutico não vai mudar o remédio, ou seja, não vai interferir no papel do médico. Ele vai indicar ao paciente que ele volte à unidade básica de saúde para controlar a pressão. Isso vale para o paciente com diabetes e para uma série de doenças crônicas.

ICTQ - Esse paciente foi ao neurologista, ao cardiologista e ao endocrinologista e, no final das contas, não falou para um médico sobre a prescrição do outro. Ele acaba com dez receitas diferentes, muitas vezes para os mesmos problemas. Qual seria a atuação do farmacêutico nesse caso?

Drauzio Varella - A função do farmacêutico aí é examinar a compatibilidade da medicação. Às vezes, há medicamentos com ações antagônicas e há medicamentos que são, exatamente, a mesma droga, mas com nomes comerciais diferentes. Essa é a função do farmacêutico, de dar essa orientação, de dizer: “Este medicamento é a mesma coisa que o outro, e o senhor não pode tomar os dois”. “Este tem uma incompatibilidade com os outros que o senhor já está tomando”.  “Entre em contato com seu médico”.

Nesse caso, o farmacêutico também pode entrar em contato com o médico ou enviar um comunicado com as informações de que aquele medicamento já foi prescrito por outro especialista.

 ICTQ - O prontuário único resolveria esse problema, não?

Drauzio Varella - O prontuário único é o sonho de todos. A gente fala nisso há tantos anos e não consegue avançar, infelizmente.

ICTQ - O senhor acha que a atuação eficiente do farmacêutico na farmácia comunitária poderia aliviar o serviço público de saúde?

Drauzio Varella - Aliviaria muito. A saúde no Brasil é centralizada no médico, não é centralizada na farmácia, na enfermagem, no farmacêutico ou no auxiliar de enfermagem. Isso até é bom, porque ele estuda muitos anos, mas isso é irreal. Há muitas cidades do interior em que não se tem médicos presentes. E não são todas as atividades que nós, médicos, fazemos bem, como é o caso de controle de pressão, que nós fazemos isso muito mal. Controle de doenças crônicas nós, médicos, fazemos mal porque temos outras coisas para fazer, ou porque a gente não gosta de fazer esse tipo de controle, ou porque temos de estudar isso e acompanhar a literatura. E não dá para fazer esse acompanhamento corpo a corpo.

O farmacêutico pode fazer isso. A enfermagem pode fazer isso. Nós utilizamos pessimamente a enfermagem também. Esses profissionais estudam quatro ou cinco anos, e muitos têm doutoramento e livre docência. No final, eles se preparam muito e nós deixamos de usar seus conhecimentos. 

Dr. Drauzio Varella no ICTQ STATION. Confiram o que ele falou sobre o farmacêutico e o seu trabalho na saúde pública.

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