A importância dos IFAs nas vacinas

A importância dos IFAs nas vacinas

Insumo Farmacêutico Ativo ou simplesmente IFA, sigla industrial que passou a ser muito falada por conta da sua participação no processo de produção das vacinas contra a Covid-19.

Em entrevista à Folha, o presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi), Norberto Prestes, frisou a importância da substância.

Cada vacina ou medicamento tem o seu IFA, que também depende de outras substâncias para ser ingerido e fazer o corpo reagir. “Se eu não colocar os ingredientes certos, o ‘fermento’ não vai funcionar. Não se toma um princípio ativo isolado”, salientou Prestes.

No caso dos medicamentos em geral, o IFA é feito do petróleo, que é transformado por um processo de química fina. Já os imunizantes têm como base elementos biológicos, como o próprio vírus, por exemplo.

Nas vacinas, cada uma tem seus princípios ativos próprios, porém os insumos passam por processos parecidos. A primeira etapa é fazer o vírus se reproduzir. Para isso, ele é introduzido em células animais (de rim de macaco no caso da Coronavac). Essas células, por sua vez, também são introduzidas em um meio de cultura com nutrientes, sais e PH ideais para que se repliquem.

“A multiplicação da célula e do vírus acontece ao mesmo tempo”, explicou à Folha o gerente de parcerias estratégicas do Butantan, Tiago Rocca. “O vírus sempre vai precisar de uma célula hospedeira, quase sempre animal. Nas vacinas de influenza e de febre amarela, é o ovo embrionado. Na vacina de HPV ou hepatite, é um fungo”.

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Esse processo demanda o uso de biorreatores, que processam a substância e ainda estão sendo comprados pelos laboratórios no Brasil. Eles são descartáveis – depois de produzir um lote de vacinas, a grande bolsa plástica é descontaminada, incinerada e trocada por uma nova.

É na próxima etapa que os IFAs das vacinas, como a Coronavac e a de Oxford, se diferenciam. Como a primeira usa o próprio coronavírus como matéria-prima, precisa torná-lo inativo para que ele não infecte o ser humano quando for aplicado (por isso essa técnica se chama ‘vacina de vírus inativado’).

A inativação é feita utilizando três fatores, segundo Rocca: a adição de agentes químicos, a regulação da temperatura e o tempo, em um ciclo que demora algumas horas na Coronavac. Já no caso da vacina de Oxford, é usado um adenovírus de chimpanzé que não causa doença em humanos, por isso não é preciso inativá-lo. Ele é um ‘vetor viral’ inofensivo, que apenas carrega a proteína do coronavírus ao corpo.

Esse momento de lidar com um vírus vivo é extremamente delicado e exige uma série de medidas que impeçam que ele saia daquele ambiente, como vestiários especiais para trocar de roupa e ar-condicionado com filtros, adaptações que o Butantan está fazendo e a Fiocruz já possui.

A fase seguinte para se chegar ao IFA é filtrar e purificar essa substância até que sobre apenas o vírus. Isso implica em remover todas as células, o meio de cultura em que elas foram inseridas e os elementos que elas produziram durante sua multiplicação.

Depois, são adicionados a essa matéria bruta os chamados adjuvantes, agentes químicos (hidróxido de alumínio, no caso da Coronavac) que ‘mostram’ o antígeno para o sistema imune do corpo e o estimulam a produzir uma resposta.

“No nosso caso não usamos um transportador, existem algumas vacinas que usam uma molécula para proteger o princípio ativo”, revelou Rocco. “A nossa vacina tem ação sistêmica, ou seja, geral no corpo. Há vacinas, como o spray nasal, que começa a estimular os anticorpos primeiro no sistema respiratório”.

Nesta fase o IFA está pronto. As últimas etapas são diluí-lo em uma ‘água para injetáveis’ (por isso poucos litros do princípio ativo podem produzir uma grande quantidade de doses), envasá-lo, rotulá-lo e inspecionar sua qualidade. Esses são os únicos processos que estão sendo feitos no Brasil, por enquanto, até que a tecnologia seja importada.

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Mas iniciativas brasileiras para desenvolver vacinas com um IFA 100% nacional estão em curso, apurou a Folha. Uma das mais avançadas é a da empresa Farmacore, em parceria com a americana PDS Biotech e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP). Ela está finalizando a fase pré-clínica e deve começar o ensaio em humanos até junho.

“Utilizamos uma técnica mais simples porque não exige trabalho com vírus vivo nem inativado. Usamos um pedaço de uma proteína do coronavírus e um meio de cultura que não tem origem animal. Só exige biorreatores, que são fermentadores grandes”, revelou ao jornal a diretora da Farmacore, Helena Faccioli.

Atualmente, o Brasil só produz 5% de todos os insumos farmacêuticos que consome, percentual que era de 55% nos anos 1980. “O grande aprendizado da pandemia foi que é preciso investir sem interrupções para expandir e diversificar a produção. São 210 milhões de habitantes, não dá para sermos tão dependentes”, frisou Norberto Prestes.

Por enquanto, Butantan e Fiocruz só estão usando insumos e imunizantes que já vieram prontos da China ou da Índia. No segundo semestre, porém, ambos planejam terminar de adaptar suas fábricas e começar a produzir suas próprias matérias-primas do zero.

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