Métodos rápidos de detecção microbiológica ampliam eficiência e encurtam prazos na indústria farmacêutica

Métodos rápidos de detecção microbiológica ampliam eficiência e encurtam prazos na indústria farmacêutica

Reduzir o tempo de liberação sem perder controle não é modernização, é responsabilidade técnica. Na rotina do controle microbiológico, os Métodos Rápidos de Detecção Microbiológica (RMM) vêm substituindo ensaios clássicos de contagem e esterilidade, mas só entram de fato no laboratório quando comprovam, com documentação e dados comparativos, que entregam desempenho equivalente ao método de referência.

“A validação de métodos microbiológicos é um processo complexo porque trabalha com organismos vivos, e a validação é do método, não do produto”, afirma a diretora técnica e farmacêutica responsável do L.C.Q.Pq. – Laboratório de Controle de Qualidade e Pesquisa Ltda, Marisa de Moura Souza da Luz, ao destacar que a incorporação exige critérios técnicos (linearidade, especificidade, exatidão, precisão, limites de detecção e quantificação, robustez) e critérios regulatórios (diretrizes de farmacopeias, análise de risco, equivalência estatística e, quando aplicável, alinhamento com autoridades sanitárias).

De acordo com a diretora, os RMM (do inglês, Rapid Microbiological Methods) vêm substituindo métodos clássicos de contagem ou esterilidade, reduzindo o tempo de liberação de produtos. São técnicas que permitem identificar, quantificar e enumerar microrganismos de forma mais ágil do que os métodos tradicionais. Sua implementação, especialmente em setores como o farmacêutico, exige uma validação rigorosa para atender aos critérios técnicos e regulatórios.

O que é a Validação de Métodos Microbiológicos

Validação de Métodos Microbiológicos é a validação de um procedimento que utiliza microrganismos vivos para confirmar que ele e capaz de produzir resultados confiáveis e consistentes para uma determinada aplicação. “O objetivo é garantir a qualidade, segurança e confiabilidade dos resultados obtidos, que podem ser utilizados para aprovação de produtos ou tomada de decisões importantes. É um requisito regulatório, exigido por órgãos como a Anvisa e o FDA”, comenta Marisa.

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Critérios técnicos de validação

Os critérios técnicos abordam as características de desempenho do método para garantir que ele seja tão confiável quanto à metodologia tradicional. A validação de métodos microbiológicos é um processo complexo, pois utiliza organismos vivos, diferentemente dos métodos analíticos.

O que é validado é o método, não o produto. A validação abrange métodos não normalizados, aqueles desenvolvidos pelo próprio laboratório e as adaptações de métodos ja existentes.  O processo de validação deve ser documentado e demonstrar que o método atende aos requisitos de desempenho para a aplicação específica.

Marisa resume: a validação de métodos microbiológicos é um processo de garantia da qualidade e confiabilidade dos métodos analíticos.

Os critérios de aceitação para métodos microbiológicos são parâmetros de desempenho definidos para validar se um método é adequado para o fim pretendido, sendo essenciais para garantir a confiabilidade dos resultados.

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Eles incluem a Linearidade, Especificidade, Seletividade, Exatidão, Precisão, Limite de Detecção e Quantificação. Esses critérios de validação devem ser avaliados por órgãos como a FDA e a ISO. Para ser aceito, o método deve apresentar desempenho satisfatório em relação a esses parâmetros, garantindo que os resultados sejam consistentes e precisos.

Critérios de validação

  • Linearidade e Faixa (intervalo) de Trabalho: mostra a proporcionalidade dos resultados em relação ao intervalo de concentração dos microrganismos em uma faixa específica, dentro da qual o método é linear, preciso e exato.
  • Especificidade: a capacidade do método de detectar o microrganismo-alvo, mesmo na presença de outros microrganismos e componentes da amostra. Isso é crucial, pois a matriz do produto pode influenciar o resultado.
  • Seletividade: a capacidade do método de identificar e quantificar o microrganismo-alvo especificamente, sem interferência de outros.
  • Exatidão: avalia a proximidade entre o valor encontrado e o valor real/verdadeiro ou de referência. Para RMMs, a exatidão geralmente é avaliada comparando-se com o método tradicional.
  • Precisão: avalia a concordância entre os resultados obtidos em sucessivas análises (medições repetidas), indicando a consistência do método, o que inclui a repetibilidade (variação dentro do mesmo laboratório, com o mesmo analista e equipamento) e a precisão intermediária (variação entre laboratórios, analistas ou equipamentos).
  • Sensibilidade e Limite de Detecção (LD): demonstra a menor quantidade de microrganismos que o método consegue detectar de forma confiável.
  • Limite de Quantificação (LQ): a menor concentração de microrganismos que pode ser medida com precisão.
  • Robustez: a capacidade do método de se manter confiável diante de pequenas variações em parâmetros como tempo e temperatura de incubação.
  • Equivalência: comprova, por meio de dados estatísticos, que o RMM e comparável ao método tradicional, como exigem muitos órgãos regulatórios.
  • Considerações técnicas adicionais: atividade antimicrobiana, quando a amostra deve ser testada quanto à presença de substâncias que possam inibir o crescimento microbiano, e a sua neutralização deve ser validada. Já a tecnologia e automação são as plataformas de RMM, que podem ser baseadas em crescimento, detecção de componentes celulares (ATP) ou métodos genéticos (PCR), e devem ter seus softwares qualificados e validados para garantir a integridade dos dados.

Critérios regulatórios para RMMs

“Os órgãos reguladores, como a Anvisa no Brasil e o FDA nos Estados Unidos, aceitam e incentivam o uso de RMMs, desde que devidamente validados. A validação não é um processo opcional, mas sim um requisito regulatório”, lembra Marisa, que descreve os requisitos regulatórios específicos da seguinte maneira:

  • Farmacopeias: as farmacopeias, como a Brasileira (FB) e a Americana (USP), fornecem as diretrizes e os métodos gerais para os ensaios microbiológicos. No Brasil, a 7a edição da FB ja aborda os métodos rápidos. A validação deve ser feita de acordo com as diretrizes aplicáveis.
  • Análise de Risco: a validação de um RMM deve ser precedida por uma análise de risco para determinar se o método é adequado para a variedade de produtos da empresa.
  • Equivalência Estatística: a aprovação regulatória de métodos alternativos depende da comprovação estatística da equivalência com o método tradicional de referência.
  • Submissão regulatória: em muitos casos, é necessário trabalhar com as autoridades para entender completamente suas expectativas de validação e os requisitos de submissão do método, conforme USP <1223>, Ph. Eur. 5.1.6, (Visão geral dos Estados Unidos e Europa – Capítulos da Farmacopeia dedicados a Validação de Métodos Microbiológicos Alternativos). O método deve ser cientificamente justificado e aprovado pela autoridade sanitária, após validação completa e comparativa.

Gestão de riscos microbiológicos

De acordo com a diretora, uma gestão eficaz deve seguir princípios do ICH Q9 (Quality Risk Management) e da RDC 658/2022, e envolve:

  • Mapeamento de pontos críticos de risco microbiológico (materiais, processos, equipamentos, pessoal, utilidades);
  • Classificação de riscos (probabilidade × impacto);

- Implementação de controles preventivos e corretivos;

- Monitoramento contínuo de indicadores microbiológicos;

- Revisões periódicas do plano de risco, integradas ao sistema de qualidade.

“Em produtos estéreis, o foco e manter a esterilidade garantida (sterility assurance level). Em não estéreis, é controlar a biocarga e evitar contaminações cruzadas e presença de patógenos. A gestão de riscos microbiológicos deve ser estruturada como um processo sistemático, proativo e baseado em ciência”, destaca Marisa. O processo deve ser integrado ao Sistema de Gestão da Qualidade Farmacêutica (SGQF), conforme diretrizes como a ICH Q9 e regulamentações da Anvisa. Envolve a avaliação, controle, comunicação e revisão contínua dos riscos para a qualidade do produto e segurança do paciente.

Estrutura geral da gestão de riscos microbiológicos

O processo sistemático de gestão de riscos microbiológicos segue um ciclo contínuo:

  • Identificação do Risco: mapear potenciais fontes de contaminação em todas as etapas do processo produtivo (matérias-primas, pessoal, equipamentos, ambiente, utilidades como sistemas de água e materiais de embalagem).
  • Análise e Avaliação do Risco: avaliar a probabilidade de um evento de contaminação ocorrer e o impacto potencial na qualidade do produto e na saúde do paciente. Ferramentas como HACCP (Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle) e FMEA (Análise dos Modos de Falha e Seus Efeitos) são comumente utilizadas.
  • Controle do Risco: implementar medidas preventivas e de controle para mitigar os riscos identificados a um nível aceitável. Isso inclui procedimentos operacionais padrão (POPs), validação de processos, treinamento de pessoal e manutenção de equipamentos e instalações.
  • Comunicação do Risco: garantir que as informações sobre os riscos e as medidas de controle sejam comunicadas de forma eficaz entre todas as partes interessadas (equipes de produção, qualidade, manutenção e gestão).
  • Revisão do Risco: monitorar continuamente a eficácia das medidas de controle e reavaliar periodicamente os riscos, ajustando as estratégias conforme necessário ou em resposta a desvios, mudanças no processo ou novas informações (abordagem proativa e reativa).

Diferenças Cruciais entre Ambientes Estéreis e Não Estéreis

“Embora a estrutura básica seja a mesma, a aplicação e a criticidade das medidas divergem significativamente. Em ambos os casos, a gestão de riscos microbiológicos é fundamental e deve ser baseada em conhecimento científico para proteger o paciente”, alerta Marisa.

Característica

 

Medicamentos Estéreis

Medicamentos Não Estéreis

Objetivo Final

 

 

Ausência total de microrganismos viáveis (esterilidade).

Manter a carga microbiana dentro de

limites aceitáveis especificados em

compêndios oficiais.

Criticidade do

Risco

Extremamente alta, pois a contaminação pode levar a

infecções graves, especialmente em pacientes

imunocomprometidos.

Alta, mas com limites definidos. A

contaminação pode comprometer a eficácia

ou segurança.

Ambiente de

Produção

 

Requer áreas limpas classificadas (Graus A, B, C e D), com controle rigoroso de qualidade do ar (filtros HEPA), pressão diferencial e monitoramento ambiental intensivo

(partículas e microrganismos).

Áreas limpas podem ser necessárias, mas

os requisitos de classificação de pureza do

ar e monitoramento são menos rigorosos

do que para estéreis.

Controles de

Processo

Processos assépticos validados ou esterilização terminal.

Uso de tecnologias como isoladores para minimizar a

intervenção humana.

Depende de Boas Práticas de Fabricação

(BPF) robustas, controle de matérias-primas e, às vezes, conservantes

para inibir o crescimento microbiano.

Testes de

Qualidade

Teste de esterilidade e, quando aplicável, teste de

Endotoxinas.

Teste de limite microbiano e pesquisa de

patógenos específicos, conforme estabelece

a farmacopeia.

Como atuar na área

Para se capacitar e estar apto para atuar na indústria farmacêutica, ou mesmo, ascender na carreira, o ICTQ oferece cursos de pós-graduação nessas áreas, por exemplo:

  • Gestão da Qualidade e Auditoria na Indústria Farmacêutica (Ao Vivo / On-line) – aborda Boas Práticas de Fabricação de Medicamentos, garantia de qualidade: ferramentas, indicadores e CAPA, documentação técnica aplicada ao sistema de gestão da qualidade, análise e gerenciamento de riscos, revisão periódica de produto, qualificação e validação, integridade de dados etc.
  • Assuntos Regulatórios na Indústria Farmacêutica (Ao Vivo / On-line) - voltada aos assuntos regulatórios que regem a indústria farmacêutica no Brasil, farmacovigilância, estudos de equivalência e bioequivalência, vigilância sanitária em portos, aeroportos e fronteiras, legislação tecnovigilância, registro de insumos farmacêuticos, pós-registro de medicamentos, auditoria farmacêutica etc.
  • P&D Analítico e Controle de Qualidade na Indústria Farmacêutica – inclui o desenvolvimento para o manejo de técnicas e instrumentação analítica que auxiliarão em competências na pré-formulação e formulação de medicamentos. Além disso, o conteúdo inerente à validação de processos dará maior segurança para atuar na produção e desenvolvimento de medicamentos.
  • Gestão e Tecnologia Industrial Farmacêutica - qualificação de fornecedores, boas práticas de fabricação, de laboratório, métodos cromatográficos, validação de processos etc.

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