Pandemia: o poder do NÃO nas mãos do Farmacêutico

Pandemia: o poder do NÃO nas mãos do Farmacêutico

Para quem imaginou que o Brasil começaria a caminhar após o carnaval – como ocorre impreterivelmente todos os anos – está vivendo agora uma situação inusitada, e que provavelmente terá consequências sem precedentes, tanto a nível de saúde pública, quanto econômico, moral e por aí vai. Aos mais desavisados, estou me referindo à pandemia causada pelo famigerado Coronavírus, também denominado COVID-19, que está causando, literalmente, a paralisação não só do “país do carnaval”, mas também do mundo!

Quero chamar aqui a atenção, especialmente dos farmacêuticos e farmacêuticas que se encontram na linha de frente, recebendo e atendendo os pacientes nas farmácias. Vocês possuem um poder nas mãos que tem potencial destrutivo ou benéfico, a depender da sua escolha: o poder do NÃO! Vamos aos fatos.

Um dos pontos nevrálgicos em discussão neste momento no meio científico, é a publicação na revista científica The Lancet realizada no dia 11 de março de 2020, com o título “Are patients with hypertension and diabetes mellitus at increased risk for COVID-19 infection?”, traduzindo: Os pacientes com hipertensão e diabetes mellitus estão em maior risco de infecção por COVID-19?

A publicação menciona que o COVID-19 se liga às células alvo, no organismo humano, através da Enzima Conversora de Angiotensina 2 (ECA2), a qual é expressa pelas células do tecido epitelial dos pulmões, intestino, rins e veias. A expressão da ECA2 está substancialmente aumentada em pacientes com diabetes tipo 1 ou 2, os quais são tratados com iECA e BRA. A hipertensão também é tratada com estes mesmos medicamentos, o que resulta na regulação positiva desta enzima. A ECA2 também pode ser aumentada pelas Tiazolidinodionas e o Ibuprofeno. Com esses dados, a publicação SUGERE que a infecção pelo COVID-19 é facilitada devido ao aumento da expressão da ECA2 diante das situações supracitadas, e é levantada a HIPÓTESE que estes medicamentos aumentam o risco do desenvolvimento de COVID-19 grave e fatal.

E o que o farmacêutico tem a ver com essa história toda? Meus amigos e amigas, primeiramente uma das nossas maiores responsabilidades é a educação em saúde. Mas para que essa atitude seja eficaz, precisamos impreterivelmente buscar informações legítimas e de fontes confiáveis. Infelizmente estamos sendo bombardeados por uma enxurrada de informações falsas (fake news), que se espalham mais rapidamente do que o vírus propriamente dito, especialmente por meio das redes sociais. Temos que buscar tranquilizar os pacientes hipertensos e diabéticos que se encontram entre a população de risco e utilizam os medicamentos envolvidos com a modulação da ECA2, e orientar que NÃO deverão modificar o tratamento, por conta das sugestões e hipóteses levantadas pelas recentes publicações. Se este for o caso, orientem os pacientes a procurar o especialista que já está prestando acompanhamento, para avaliar o risco-benefício da intervenção na terapia farmacológica.

No último dia 17 de março, a OMS informou que o mais recomendado em tratamentos contra a COVID-19 era o uso de medicamentos à base de Paracetamol, ao invés de Ibuprofeno. Todavia, no dia 19 de março, a mesma entidade voltou atrás e retirou a restrição de uso Ibuprofeno no tratamento contra a COVID-19. Em nota “após uma rápida revisão da literatura (pesquisas científicas), a OMS não está ciente dos dados clínicos ou de base populacional publicados sobre esse tópico”.

Seguindo a mesma linha, a FDA (Food and Drug Administration) – Agência Reguladora de Medicamentos e Alimentos dos EUA – também publicou em seu portal eletrônico (19/03/2020) uma nota aos pacientes que utilizam AINEs para a COVID-19. Na publicação a FDA comenta que até este momento não há evidências científicas de que a utilização de AINEs, como o Ibuprofeno, podem agravar os sintomas causados pela COVID-19. No entanto a agência está investigando ainda mais esta questão e irá publicar mais informações assim que houver novos desdobramentos. A FDA reforçou que há uma enorme gama de AINEs aprovados para o alívio da dor e da febre, e recomenda que os usuários procurem um profissional da saúde para obter orientações sobre a utilização destes medicamentos.

Portanto, devemos ficar atentos às atualizações das informações emitidas pelos órgãos e entidades competentes, para poder orientar os pacientes de forma correta. Se necessário também usar o poder do NÃO àquele paciente neurótico, que pretende comprar o estoque inteiro de Paracetamol, pois este medicamento já está em falta em muitas farmácias no Brasil. Lembrando que o Paracetamol, apesar de ser um MIP, se utilizado de forma incorreta, especialmente a superdosagem, poderá causar hepatotoxicidade com danos irreversíveis, até mesmo ser fatal.

Outra recente questão envolvendo medicamentos, todavia nos revelando talvez uma luz no fim do túnel, é a utilização da Hidroxicloroquina para o tratamento da COVID-19, mas que também despertou outro viés: a automedicação deste fármaco. Tudo começou com um pronunciamento do presidente dos EUA, Donald Trump, realizado na última quinta-feira (19/03), indicando que o uso do medicamento Hidroxicloroquina apresentou resultados preliminares que a substância pode ser eficaz no tratamento contra o novo coronavírus. Trump pediu pressa para a FDA na aprovação definitiva do produto no combate ao vírus.

Em nota publicada no portal eletrônico da Anvisa (19/03/2020), a agência afirma que “esses medicamentos são registrados pela Agência para o tratamento da artrite, lúpus eritematoso, doenças fotossensíveis e malária. Apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos para o tratamento da COVID-19. Portanto, não há recomendação da Anvisa, no momento, para a sua utilização em pacientes infectados ou mesmo como forma de prevenção à contaminação pelo novo coronavírus. A automedicação pode representar um grave risco à sua saúde”.

Isso já está causando uma corrida desenfreada às farmácias em busca deste medicamento. Vários irresponsáveis estão divulgando áudios e vídeos no WhatsApp incentivando que as pessoas comprem deliberadamente este medicamento – indicando até que uma das maiores redes de farmácias do Brasil chegou a comprar “40 mil caixas do Reuquinol” – o que poderá gerar mais problemas do que já estamos enfrentando neste momento. Ademais, a Hidroxicloroquina só pode ser dispensada mediante prescrição médica. Portanto, este é mais um alerta para que os farmacêuticos NÃO vendam este medicamento sem que o paciente realmente apresente a receita médica, pois já há relatos da ausência deste produto nas farmácias, o que poderá prejudicar o tratamento dos portadores de lúpus eritematoso, artrite reumatoide e malária.

A EMS, detentora do registro do Sulfato de Hidroxicloroquina (genérico), publicou uma nota afirmando que está tomando as medidas para aumentar a produção deste medicamento, garantindo o abastecimento a quem precisa. Já a Apsen, detentora do registro do Reuquinol®, também divulgou nota para esclarecer sobre os estudos que estão em andamento para que este medicamento possa ser utilizado contra a COVID-19. Em meio à polêmica, algumas farmacêuticas estão suspendendo, temporariamente, a venda e distribuição do medicamento. Por meio de um comunicado, a Profarma, por exemplo, informou que "os produtos Reuquinol® e Plaquinol® 400 mg (e seus genéricos equivalentes) terão suas vendas bloqueadas durante algum tempo e seus respectivos pedidos serão cancelados".

Portanto, fiquem atentos a esse turbilhão de informações as quais estão sendo veiculadas a cada segundo em todos os meios de comunicação, algumas irresponsáveis, outras com intuito mercadológico, outras com viés político, e por aí vai. A cada fala de um chefe de governo, como fez Donald Trump, ou de órgão ou agência reguladora, ou até mesmo dos grandes players do mercado como as indústrias farmacêuticas, as especulações começam a atuar como uma metralhadora giratória na mão de um cego: bolsas de valores, dólar, automedicação, fake news, pânico, esperança, insanidade!

*Muito provavelmente, algumas das informações contidas neste artigo poderão estar obsoletas em poucos dias ou até mesmo horas, devido à frenética mudança e atualização das notícias e dos estudos envolvendo a COVID-19. Portanto, reitero que fiquem bastante atentos às novas publicações.

Ismael Rosa – Farmacêutico, Diretor Acadêmico do ICTQ. Especialista em Vigilância Sanitária na Indústria Farmacêutica. Especialista em Prescrição Farmacêutica e Farmácia Clínica. Pós-graduando em Metodologias do Ensino Superior em Farmácia. Conselheiro suplente do CRF-GO. Membro da Comissão Assessora de Indústria Farmacêutica do CRF-GO.

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