Skip to main content

Covid-19: por que o teste rápido da farmácia vai dar errado

Marcelo de Valécio   27 Abril 2020   306102   Varejo Farmacêutico
Covid-19: por que o teste rápido da farmácia vai dar errado

Muitos brasileiros estão fazendo ou buscando fazer testes rápidos para detectar a presença do novo coronavírus. Boa parte desses testes usa apenas uma amostra de sangue e detectam anticorpos (IgM e IgG) como forma de identificar quem já teve contato com o vírus. O problema é que eles não servem para dizer se a pessoa está ou não doente. Apenas revelam que teve contato com o vírus.

Esses testes, que por sua característica devem ser chamados de sorológicos, não são recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), e seu uso indevido pode trazer graves consequências de saúde pública, conforme revela o jornal O Globo. Anticorpos só dizem se a pessoa teve contato com o vírus, e se esse contato foi recente (quando aparece o anticorpo IgM) ou se foi há mais tempo (anticorpo IgG).

Para sua realização, os testes precisam apenas de uma gota de sangue e não requerem treinamento especial. São mais baratos e fáceis de fabricar, o que tem gerado problemas de controle de qualidade. Para piorar, eles têm até 80% de falsos negativos: ou seja, de cada cinco pessoas que têm anticorpos, só uma testará positivo, diz a reportagem.

Receba nossas notícias por e-mail: Cadastre aqui seu endereço eletrônico para receber nossas matérias diariamente

Apesar das inconsistências, eles vêm sendo usados, de modo impróprio, no diagnóstico da Covid-19. Aparecem à venda em farmácias e laboratórios, por preços que vão até R$ 500. Em Brasília, mutirões desses testes foram organizados para diagnosticar e orientar pessoas. A iniciativa, ainda que louvável, é equivocada, segundo especialistas ouvidos pelo jornal.

Há dois tipos de teste para Covid-19: além do sorológico, tem o molecular. Este, conhecido como PCR em tempo real, verifica a presença do RNA do vírus. A amostra precisa ser colhida por um swab, ou bastonete, na garganta. O profissional de saúde deve ter equipamentos de segurança, o processamento pede laboratórios e profissionais especializados e os insumos são importados.

É bastante preciso, identifica o vírus mesmo em pacientes assintomáticos. Além disso, sabendo quem está infectado, pode-se isolar a pessoa, rastrear seus contatos e, assim, traçar um panorama da transmissão. Mas, para dar resultado abrangente, dizem os especialistas, é necessário testar muita gente. Com ele, Alemanha e Coreia do Sul conseguiram mapear a pandemia.

Publicidade

Já os mutirões em Brasília foram organizados selecionando as pessoas com sintomas de Covid-19 há mais de uma semana para fazer o teste sorológico. Se o resultado desse positivo, o indivíduo fazia o teste molecular. Um procedimento questionável, segundo especialistas.

Um dos problemas é que se o paciente testar negativo para os anticorpos ele é liberado, mas na verdade pode estar com o vírus ativo. Só que ainda não tem anticorpos suficientes para o teste notar. Ao imaginar que não tem Covid-19, o cidadão sente-se seguro, para de usar máscara e segue vida normal, colocando em risco quem tiver contato com ele.

Outro crítica ao procedimento é que se a pessoa testar positivo no sorológico, fazer o molecular e der negativo. Essa pessoa provavelmente já teve contato com o vírus, produziu anticorpos e se recuperou. Gastou-se um teste molecular, caro e escasso, à toa, na visão dos cientistas ouvidos pelo Globo.

Para os especialistas, testes sorológicos rápidos só têm uma função: após o pico da pandemia, saber quem desenvolveu imunidade e, talvez (se houver motivo para acreditar que a imunidade se mantém no longo prazo), liberar as pessoas da quarentena. No momento atual, não passam de distração e desperdício, afirmam.

A Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC) é contra a liberação dos testes rápidos em farmácias, proposta que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pretende colocar em discussão amanhã (28/04).

Em nota no site da entidade, o presidente da SBAC, Luiz Fernando Barcelos, comenta que “a possibilidade de realizar testes fora do ambiente laboratorial não anula a sua condição de exame de análises clínicas, e, dessa forma, precisa ser realizado com segurança, sob a responsabilidade de um laboratório e sempre sob a guarda do controle de qualidade (interno e externo)”.

Participe também: Grupo de WhatsApp para receber notícias farmacêuticas diariamente

Obrigado por apoiar o jornalismo profissional

A missão da Agência de notícias do ICTQ é levar informação confiável e relevante para ajudar os leitores a compreender melhor o universo farmacêutico. O leitor tem acesso ilimitado às reportagens, artigos, fotos, vídeos e áudios publicados e produzidos, de forma independente, pela redação da Instituição. Sua reprodução é permitida, desde que citada a fonte. O ICTQ é o principal responsável pela especialização farmacêutica no Brasil. Muito obrigado por escolher a Instituição para se informar.

Empresa familiar é o melhor modelo, afirma Antonio Carlos Pipponzi, da RD Saúde

No curso da entrevista a seguir, o empresário Antonio Carlos Pipponzi, de 72 an…

Descompasso entre Anvisa e Ministério da Saúde prejudica vacinação em São Paulo

Pareceria cômico se não fosse trágico! Frente ao problema da baixa imunização e…

Drogarias são notificadas por preço abusivo em medicamentos usados contra Covid-19

Cerca de 60 drogarias e distribuidores de medicamentos foram notificados por su…

Ministério da Saúde descredencia mais de 9 mil farmácias do Programa Farmácia Popular e reforça combate a fraudes

O Ministério da Saúde anunciou o descredenciamento de 9.180 estabelecimentos qu…

Máscaras acabam em farmácias, mas não protegem - entenda por que

Foi dada a largada para a corrida pela compra de máscaras de proteção contra o…

Venda de farmácias com acesso ao Farmácia Popular revela brechas e expõe falhas de fiscalização

  Polícia Federal apura simulação de vendas de medicamentos para receber…

Consultório Farmacêutico: planejamento e indicadores essenciais

Nunca é demais citar o clássico pensamento de um dos gurus da administração mod…

Pesquisa mostra que 68% das pessoas compram genéricos no país

Pesquisa feita pelo Instituto Datafolha em 12 capitais brasileiras sobre o perf…

O Programa Farmácia Popular e o Farmacêutico

O mais importante programa de Assistência Farmacêutica do Ministério da Saúde…

PF investiga 20 milhões de vendas falsas pela Farmácia Popular

A Polícia Federal (PF) deflagrou, na última sexta-feira (6/12), a Ope…