Médicos criados com inteligência artificial e deepfakes de personalidades são estratégias comuns da venda irregular de suplementos alimentares online. Em anúncios que prometem curar doenças, de forma não reconhecida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), aparecem figuras de profissionais de saúde que não existem e imitações de pessoas como Drauzio Varella e Renata Vasconcellos.
Um perfil no TikTok com mais de 141 mil seguidores e 560 mil curtidas cria declarações de supostos profissionais de saúde que teriam “sumido” ou sido “assassinados” por divulgarem os “segredos da indústria farmacêutica”. As postagens mais vistas ultrapassam 500 mil visualizações por vídeo.
Os conteúdos usam imagens geradas artificialmente e seguem roteiros semelhantes, indicando suplementos para mulheres acima de 30 anos. Os vídeos afirmam que problemas de pressão alta, dores nas articulações, eliminação de parasitas e limpeza de artérias podem ser tratados com um único produto, vendido na descrição da página.
Ao acessar o site, no entanto, o suplemento alimentar, chamado de “Diurie Fit Black”, aparece como indicado para o emagrecimento e queima de gordura. No Reclame Aqui, site que registra reclamações de consumidores, pessoas contam que compraram o produto indicado nas redes sociais com as promessas falsas.
Dois perfis no TikTok, que somam mais de 101 mil seguidores e 240 mil curtidas, inventam médicos e farmacêuticos que indicariam um suplemento para substituir o exame de toque retal – indicado para verificar a saúde da próstata – e cirurgias em pacientes com câncer ou hiperplasia prostática benigna (HPB), condição que aumenta a glândula prostática.
Os vídeos direcionam para o site do suplemento Prosterite, que promete reduzir a inflamação na próstata e o inchaço, ajudar na prevenção do câncer e aliviar a incontinência urinária. O produto é vendido em frascos unitários ou em combos, que variam de R$ 197 a R$ 697 à vista. No Reclame Aqui, consumidores relatam que não tiveram melhora com o produto.
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Segundo o médico Vinicius Meneguette, membro da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), não existe nenhuma indicação de uso de suplementos para tratar as condições urológicas. “Não há comprovação científica de eficácia para melhora de sintomas, controle ou qualidade de vida”, explicou.
O especialista ressalta que as propagandas enganosas podem afastar pacientes de diagnósticos sérios.
“Quando a pessoa opta por usar um produto sem comprovação, fazer o uso por conta própria, ela acaba se afastando do tratamento adequado, com acompanhamento profissional e a compreensão de um agravamento para a doença”, observou.
Deepfakes de pessoas famosas são usadas para vender curas para diabetes e cegueira
Deepfakes do médico Drauzio Varella e de celebridades, jornalistas e apresentadores, como Renata Vasconcellos e Ana Maria Braga, são comuns nos anúncios e nos vídeos. As imagens das personalidades são usadas para passar credibilidade e vender tratamentos para diferentes problemas de saúde, principalmente em relação ao diabetes.
Um dos suplementos, chamado “GlicoControl”, é vendido em pelo menos 39 anúncios ativos na Meta e simula a voz e a imagem do médico. As publicações afirmam que é o “único tratamento para diabetes aprovado pela Anvisa”. No vídeo, Varella supostamente teria revelado “um novo tratamento contra a diabetes tipo 1, tipo 2 e pré-diabetes”.
Apesar de ser vendido como um tratamento para a doença e o controle da glicose, o produto não consta na pesquisa de registro da agência sanitária.
Imagens geradas com inteligência artificial de Varella ainda foram encontradas em anúncios dos suplementos “GlicoStop” e “LowGlico”, que juntos somam mais de 58 anúncios ativos na Meta. A imagem de Ana Maria Braga também é usada na propaganda do primeiro produto.
Drauzio Varella já declarou, em seu site oficial, que não faz propaganda de remédios ou tratamentos e classificou como golpe postagens usando sua imagem. A apresentadora Ana Maria Braga também alertou para fraudes que usam a sua voz e imagem nas redes sociais.
Outros anúncios no Facebook usam a imagem da jornalista Renata Vasconcellos para vender o produto “Diavance” contra diabetes. O vídeo usa inteligência artificial para simular que a apresentadora teria indicado o “tratamento natural capaz de dar fim à doença” que seria “o primeiro medicamento, via oral, com resultados mais eficazes do que os injetáveis”.
O produto é anunciado em ao menos 80 propagandas ativas na Meta. Diferentemente do que alegam os anúncios, o site do produto informa que ele é um suplemento alimentar para combater sintomas do diabetes. Não foi encontrado registro da Anvisa do item, diferentemente do que dizem os vídeos gerados por IA.
No Reclame Aqui, pessoas comentam sobre a propaganda enganosa do produto. Uma dos denunciantes afirma que a mãe fez a compra do “Diavance” e suspendeu os medicamentos que tomava sob prescrição médica. Outro afirma que havia consumido 4 frascos do suplemento, “sem resultado algum”.
A médica Joana Dantas, presidente da regional Rio de Janeiro Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), explicou que não há comprovação científica de que suplementos possam tratar a doença. “Os estudos sobre o tema são limitados, pequenos e não representativos para a população em geral”, diz.
Segundo a endocrinologista, a alimentação saudável e rica em fibras, além da hidratação adequada, são importantes no tratamento do diabetes, “mas não há suplementos naturais que sejam recomendados especificamente”. “Caso um paciente com diabetes precise realizar uma suplementação, como de whey protein ou creatina, isso deve ser feito com supervisão médica”, complementa.
As promessas não param por aí: vídeos afirmam curar a cegueira e doenças de visão, como glaucoma e catarata, com suplementos alimentares que se passam por remédios. Um perfil no TikTok com mais de 500 mil visualizações nos vídeos da página simula reportagens que indicariam o produto “Nervo Vision”.
Uma postagem com mais de 250 mil visualizações no perfil imita o portal g1 com uma repórter gerada com inteligência artificial. O conteúdo diz que “o remédio restaura a visão sem cirurgia” e cura pacientes “quase cegos” em poucos dias de uso.
Como outros suplementos citados, o “Nervo Vision” também não possui registro na Anvisa para ser vendido como medicamento nas redes sociais. Na biblioteca de anúncios da Meta, esse produto é encontrado com as mesmas promessas em, pelo menos, 54 anúncios ativos.
O médico oftalmologista Emilio Suzuki, presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), explica que o tratamento para glaucoma é feito à base de medicamentos, laser ou cirurgia. Já no caso da catarata, o tratamento é cirúrgico. “Não há comprovação robusta de que suplementos possam ser trocados por remédios. Esses produtos não podem alegar tratamento ou cura”.
De acordo com o especialista, os pacientes vulneráveis, com medo de perder a visão, podem deixar de buscar por tratamento adequado, substituindo por tratamentos duvidosos. “O glaucoma é a principal causa de cegueira irreversível no mundo”, diz. “Temos comprovação robusta dos tratamentos através de colírios e cirurgias, não de suplementos. Essa desinformação pode levar os pacientes a perda severa da visão e inclusive a cegueira”.
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