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A bizarra graduação em Farmácia EaD

Começo minha reflexão nesse artigo de opinião com uma indagação em relação a um dos serviços farmacêuticos considerados corriqueiros, como o de uma aplicação de uma injeção. Será que se um cidadão, ao assistir a um vídeo sobre o tema, saberá aplicar corretamente uma injeção intramuscular? Se você é um profissional de saúde sabe que uma injeção aplicada de forma incorreta oferece um risco de a agulha acertar o nervo ciático, provocando sequelas para toda a vida ou até a morte! E eu estou sendo bem otimista, pois há muitas outras complicações...

Você deve estar se indagando por que eu estou fazendo essa pergunta esdrúxula para a qual há resposta tão óbvia! O fato é que há uma modalidade de ensino que visa justamente a formação de um farmacêutico - que deverá atender à população em suas necessidades de saúde – sem que ele jamais tenha colocado os pés em uma faculdade! É a graduação em farmácia no ensino à distância, mais conhecido como  EaD, em que os professores e alunos estão separados fisicamente. Isso, é claro, requer a comunicação on-line, com a utilização da tecnologia para a transmissão e recebimento de informações.

Nada contra este sistema para outras vertentes de cursos que complementam ou atualizam um conhecimento teórico! Sabemos que os cursos à distância podem até ser mais baratos e mais práticos (por não exigirem deslocamento), o que facilita o acesso da população à educação e a um diploma universitário. Mas o sistema 100% à distância não deveria ser oferecido a pessoas que desejam tratar e promover a cura de outras pessoas.

Volto a perguntar: você colocaria sua saúde e a sua vida nas mãos de quem aprendeu por meio de uma tela?

Total despreparo

Pessoalmente me formei bacharel em Farmácia e Bioquímica após cursar 79 disciplinas presenciais. Trabalhei mais de 12 anos no varejo farmacêutico e, como recrutador, pude conhecer o despreparo do profissional farmacêutico que sai do banco de uma universidade, ou seja,  de um curso 100% presencial. Atuei também como coordenador de uma grande equipe de farmacêuticos. Eu tinha de treiná-los e sentia, nitidamente, a deficiência em sua capacitação profissional em especializações clínicas.

Claro que estou me opondo aos cursos à distância voltados à área de saúde, no entanto, estou combatendo, especialmente os cursos de Farmácia EaD, por ser a minha área de atuação. Saliento ainda uma injustiça: há exceção do MEC para três cursos: medicina, odontologia e psicologia - todos com necessidade de atuação clínica!

Por que o curso de Farmácia – que também exige atuação clínica – não se enquadrou no mesmo aspecto? Será que nós, farmacêuticos, temos culpa nisso? Talvez, até por omissão!

No mais, a quem interessa o credenciamento no Brasil de cursos de graduação EaD em Farmácia? À população? Aos farmacêuticos? Ao Ministério da Educação? Ao Ministério da Saúde? Eu só vislumbro uma resposta plausível: Um governo que não se importa com a saúde da população, somente com os números mágicos de pessoas com o “nível superior” no País!

Sem querer desqualificar, mas eu gostaria apenas de salientar que nosso ministro da Saúde, Ricardo José Magalhães Barros, é engenheiro civil e nosso ministro da Educação, José Mendonça Bezerra Filho, é graduado em administração de empresas sem nenhuma especialização acadêmica na área da educação.

Vagas que não acabam mais

Quero ressaltar ainda um aspecto que considero alarmante. Em novembro de 2016 havia 218.299 vagas em EaD na soma das mais diversas áreas da saúde. Passados apenas três meses, em fevereiro de 2017, tivemos um total de 274.603 vagas. Neste curto período houve uma aprovação de 56.304 vagas!

Vejam bem...quase 280 mil novos profissionais da área da saúde terão a chance de ser formados com disciplinas em EaD. Destes, 9.320 vagas estão sendo ofertadas em seis instituições nacionais de ensino para o curso de Farmácia cujas disciplinas também ocorrem em EaD. E sabem o que é pior?... Eles vão se camuflar entre os profissionais formados em cursos presenciais, pois não há diferença nos certificados de conclusão dos cursos.

Os sérios problemas que esse tipo de formação pode trazer a categoria profissional

Frente a esse cenário, eu vejo sérias consequências ocasionadas pelos cursos Ead em farmácia em toda a categoria profissional:

1- Imagine a imprensa relatando mortes provocadas pela imperícia técnica de farmacêuticos no exercício da profissão, assim como já tem acontecido com os enfermeiros em diversas partes do país.... Imagine a população avaliando o farmacêutico como um agente de risco numa simples aplicação de injeção endovenosa.

2 – Já trabalhei com o recrutamento e seleção de farmacêuticos em grandes redes. O nível de discernimento, preparo técnico e atitude profissional já é muito questionável por parte dos candidatos recém-formados que exibem a carteirinha do CRF. O que nos desvaloriza muito frente aos empregadores. Imagine o quanto esse nível deve descer ladeira abaixo, a partir dos recém-formados pela internet... Será um golpe duro na luta pela valorização da classe.

3 - A falta de laboratórios de manipulação e produção de medicamentos no cursos EaD, ocasionará a formação de profissionais sem nenhum preparo e conhecimento para manusear equipamentos, aparelhos, vidrarias, reagentes, lâminas e etc. Imagine o custo de treinamento e adequação de pessoal para as indústrias e laboratórios que serão obrigadas a absorver um profissional que só ostenta um título vazio de qualquer conhecimento prático, por menor que seja...

4 -  Imagine você que ralou por 4 ou 5 anos em uma faculdade integral ou semi-integral marcando presença na faculdade todos os dias da semana, estudando horas a fio em laboratório, se vê agora disputando uma vaga com um cidadão que “estudou” apenas pela internet sem sair de casa... Imagine você sendo visto como “igual” em termos de formação, com um cidadão formado em um curso EaD, que apresenta um diploma de graduação igualzinho ao seu – como se fosse presencial...

5 – Os consultórios farmacêuticos já são uma realidade dentro de grandes redes e também em farmácias independentes em todo o país. Já parou para pensar no constrangimento desses formados pela internet frente a um paciente, mudos, sem saber por onde começar?... Traçando um paralelo: Os médicos cubanos, somente pela limitação do idioma, já apresentaram problemas, imagine então, os “farmacêuticos online” com limitação de conhecimento em um português bem claro... Imagine ainda o sepultamento definitivo da possibilidade de vermos a prática clínica nas farmácias...

O que podemos fazer?

Protestar e levantar o debate sobre a formação EaD faz parte do que podemos fazer, mas não é o suficiente. Discutir com um “ministério da educação” focado em metas de número de graduados no país e não na qualidade do ensino superior, é o mesmo que enxugar gelo.

No entanto a articulação política para criação de projetos de lei que preveja requisitos básicos para a formação em farmácia pode ser um dos caminhos. De imediato, o mínimo que precisamos fazer para responder à altura do absurdo, é a criação de um exame de proficiência para expedição da carteira do CRF para os novos acadêmicos de farmácia que ingressam agora nas faculdades (presenciais e EaD).

Prova de proficiência para credenciamento perante o Conselho Regional de Farmácia, semelhante a prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), abordando temas acadêmicos e técnicos que fazem parte do âmbito farmacêutico e que foram explanados durante todo o curso, como uma forma de selecionar os futuros farmacêuticos separando o joio do trigo.

Para finalizar, saliento que, notoriamente, a modalidade em EaD é válida para complementação de estudos que visem à qualificação e ao aprimoramento profissional, fundamentados na política de educação permanente (cursos para formação técnica, de atualização, pós-graduação e de especialização), mas não para formação do profissional na graduação.

A área da saúde, por suas peculiaridades e características de integração com o ser humano, não se identifica com a modalidade de ensino EaD integral para cursos de graduação - ensino este cuja prioridade está voltada às concepções de formação de qualidade, presencialmente!

*Rener Lima é Farmacêutico e Gerente de Relacionamento do ICTQ – Unidade São Paulo

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