Intoxicação por medicamentos cresce 20% em uma década no Brasil

Intoxicação por medicamentos cresce 20% em uma década no Brasil

Nos registros mais recentes do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), de 2016, foram apurados no Brasil 80.082  casos de intoxicação, sendo 27.261 provocados por medicamentos, o que corresponde a 34% do total. Esse número é cerca de 20% superior ao da pesquisa realizada uma década antes, quando foram computados 22.552 casos desse tipo. Entre as principais causas das intoxicações medicamentosas, os acidentes individuais predominam (8.911 casos ou 32,7%), seguidos das tentativas de suicídio (8.888 –32,6%), uso terapêutico (5.855 – 21,5%), erro de administração (1.368 – 5%) e automedicação (919 – 3,4%).

Os especialistas destacam, contudo, que esses dados representam os casos notificados ao sistema, mas não expressam necessariamente todas as ocorrências no Brasil, pois sempre há a possibilidade de subnotificação ou notificação incorreta. Os dados dos casos de tentativa de suicídio tendem a ser mais seguros, pois envolvem maior visibilidade, já outros podem ser mascarados. “A automedicação, por exemplo, fica em quinto lugar entre as principais circunstâncias de intoxicação por medicamentos. É importante observar que as pessoas têm vergonha em admitir que sua intoxicação foi decorrente de automedicação. Preferem afirmar que se tratou de um acidente”, revela Rosany Bochner, pesquisadora e doutora em Saúde Pública e coordenadora do Sinitox. De fato, segundo especialistas, há uma dificuldade de estimar o número preciso, uma vez que há casos de intoxicação que sequer chegam ao hospital e, portanto, nem entram nas estatísticas.

Na avaliação dos profissionais de saúde, a proliferação de usuários adultos intoxicados por medicamentos resulta do consumo excessivo, da falta de conhecimento das contra-indicações e principalmente da automedicação. Este é um fator que pesa nos casos de intoxicação porque significa o uso de uma substância potencialmente perigosa sem nenhum tipo de orientação profissional. Muitos diagnósticos são adiados por conta dessa prática, dificultando o tratamento de doenças que podem ser graves. “A automedicação é um fenômeno bastante preocupante”, avalia André Schmidt Suaiden, especialista em Atenção Farmacêutica e professor do ICTQ. O que poderia ser uma prática complementar aos sistemas de saúde de países pobres e, portanto, benéfica ao paciente, acabou se tornando um problema. “A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou diretrizes definindo que os medicamentos a serem empregados na automedicação deveriam ser eficazes, confiáveis, seguros e de emprego fácil. No entanto, a automedicação vem produzindo efeitos indesejados, como enfermidades iatrogênicas e o mascaramento de doenças evolutivas, representando ao contrário de uma prática complementar um grande problema de saúde”, sustenta.

Estudo realizado pelo ICTQ em 2014 demonstrou que 76,4% da população brasileira se automedicam, sendo a maior parte originária a partir da sugestão de um leigo. Essa mesma pesquisa mostra que 68,1% dos entrevistados recomendam medicamentos para colegas, familiares e amigos, estimulando a automedicação. Historicamente, a dificuldade de acesso a serviços de saúde e a cultura da indicação fizeram com que os brasileiros procurassem solucionar seus problemas de saúde se automedicando. Para o farmacêutico clínico em Infectologia e professor do ICTQ Claudinei Santana, “o acesso ao medicamento no Brasil, por todas as classes sociais, sem a devida orientação ou prescrição é muito fácil. Utilizar medicamento sem informação é sinônimo de complicações dos mais variados tipos, incluindo intoxicações”, pontifica. Medicamento é um produto para o qual o cidadão comum não tem condições de fazer a escolha sozinho. Daí a importância da prescrição do médico e a orientação do farmacêutico.

Segundo Rosany Bochner, os riscos da intoxicação por medicamentos podem variar desde uma simples manifestação clínica, como diarréia, tonturas, enjôos e vômitos, até a quadros graves que podem levar à morte. A letalidade das intoxicações por medicamentos atinge cerca de 20% dos casos de mortes por intoxicação. “Os riscos são inúmeros, desde uma alergia, que pode passar desapercebida, até casos mais graves como anafilaxia, um tipo de alergia que pode levar a morte”, esclarece André Schmidt Suaiden. Claudinei Santana lembra ainda que os riscos estão diretamente relacionados com as características dos medicamentos, que possuem naturalmente reações adversas e são potencializadas pela dose excessiva. “Os anti-inflamatórios não esteroidais, por exemplo, possuem risco de causar hemorragias gastrointestinais que podem ser potencializados na intoxicação. Em relação aos anticoagulantes, a dose excessiva pode promover hemorragias”, assinala.

Vários tipos de medicamentos podem causar intoxicação. Estudos realizados desde a década de 1990 apresentam várias classes farmacológicas relacionadas ao problema. Dentre as mais prevalentes estão os opioides, sedativos e hipnóticos (benzodiazepínicos), antidepressivos e anti-inflamatórios. “Muitos desses medicamentos são utilizados para as condições comuns na sociedade moderna, como dor e inflamação, insônia, ansiedade, depressão”, revela Claudinei Santana. “De fato, as pesquisas demonstram que a ocorrência de intoxicações é maior com fármacos que exercem função no sistema nervoso central, conhecidos como neuropsicofármacos, cuja utilidade é para o tratamento de ansiedade e depressão e transtornos do humor”, assinala André Schmidt Suaiden. Entre esses medicamentos, estão o diazepan, fenobarbital, haloperidol, clonazepan, carbamazepina e amitriptilina.

Mas não são apenas os medicamentos tarja preta que podem ocasionar problemas, aponta Rosany Bochner. “Os medicamentos isentos de prescrição (MIP) também causam intoxicações”, revela. Fármacos como analgésicos e anti-inflamatórios – ácido acetilsalicílico, diclofenaco, dipirona e paracetamol – ocupam a segunda posição entre os medicamentos que mais provocam intoxicação, seguido de antialérgicos e antigripais. Na quarta colocação estão os fármacos que são utilizados para tratamento das doenças do sistema cardiovascular, como os anti-hipertensivos e, por último, mas não menos importante, os fármacos utilizados como antimicrobianos. “Vale ressaltar que a associação entre fármacos é outro grave problema de intoxicações, por conta das interações entre eles”, afirma André Schmidt Suaiden.

Para prevenir todos esses casos é importante manter em casa o mínimo de medicamentos possível, sugere Rosany Bochner. “As pessoas têm de entender que medicamento não é um produto como uma blusa ou calça, que se compra para aproveitar preços de liquidação ou oferta.” Claudinei Santana concorda e destaca que os MIPs, por exemplo, podem ser controlados também, pois são de responsabilidade dos farmacêuticos quanto à orientação e esclarecimento de dúvidas. “Uma medida excelente seria a efetiva prescrição farmacêutica desses medicamentos, conforme a Resolução nº 586 de agosto de 2013, a ser realizada pelo farmacêutico, seguida de todas as orientações quanto aos efeitos colaterais, interações medicamentosas e efeitos causados pela superdosagem responsável pela intoxicação.”

Alguns especialistas dizem que o uso de medicamentos fracionados poderia atenuar o problema da intoxicação porque as pessoas evitariam a formação da farmacinha em casa e comprariam apenas o que o médico estipulou na receita. Apesar de existir a regulamentação para os fracionados a prática não pegou no Brasil. Na visão de Claudinei Santana, a venda fracionada resolveria o problema do excesso de medicamento disponível, o que poderia ser um ponto importante para reduzir a incidência de intoxicação. “Muitas das intoxicações acontecem porque esses medicamentos estão disponíveis por sobrarem após um tratamento realizado.” Para o professor, a venda fracionada não pegou pela ausência de atuação efetiva dos órgãos reguladores e também pela não participação ou cobrança da população por esse acesso fracionado.

Já Rosany Bochner acredita que as regras para uma farmácia proceder ao fracionamento eram muito rígidas, o que dificultou o processo. André Schmidt Suaiden concorda com ela. “Venda fracionada não pegou no Brasil porque a RDC 80/2006 esbarra em muita burocracia, como ter um local próprio para a prática do fracionamento, todos os medicamentos fracionados devem contar com bula para o paciente, incluindo razão social da farmácia, farmacêutico que fez o fracionamento, posologia e forma de administração, onerando o custo e o tempo do farmacêutico. Outro fator é que as indústrias precisam fabricar os medicamentos em embalagens especiais que precisam ser subdividas, além de terem a especificação de embalagens fracionáveis também, onerando os custos para a indústria”, diz Suaiden.

Seja em que quantidade for, diz a coordenadora do Sinitox, medicamento deve ser guardado em local apropriado em relação à temperatura e à umidade, lembrando que ele possui validade. “Por essa razão, deve-se sempre fazer uma vistoria no que se tem em casa armazenado. Além disso, medicamento receitado para uma pessoa não pode ser administrado a outra sem orientação médica. Mesmo os isentos de prescrição devem ser administrados com cuidado. Nesse sentido é importante ressaltar o mal que uma simples aspirina pode causar em caso de dengue”, adverte Rosany Bochner. “Devemos acabar com a ‘vizinho terapia’: o que é bom para você não significa que será bom para o seu vizinho ou amigo. Os sintomas podem ser os mesmos, mas o diagnóstico, não”, completa André Schmidt Suaiden.

Segundo especialistas, as crianças são vítimas comuns das intoxicações medicamentosas porque se envolvem constantemente em acidentes domésticos com remédios, principalmente os menores de cinco anos. Boa parte dos casos acontece por negligência, imprudência ou ignorância dos pais ou responsáveis. Muitos remédios têm sabor agradável ao paladar infantil, como os xaropes, o que atrai a atenção das crianças, e nem sempre são guardados corretamente. “Nunca se deve deixar medicamentos sobre a mesa de cabeceira ou em locais acessíveis aos pequenos. Eles devem ser guardados bem fechados, em lugar seguro, trancado, longe do alcance das mãos e dos olhos das crianças, de modo a não despertar sua curiosidade”, esclarece Rosany Bochner, destacando outras ações. Entre elas, não administrar medicamentos no escuro e observar bem as embalagens, pois há muitos medicamentos de adultos e de crianças que têm caixas muito parecidas ou ainda medicamentos diferentes com embalagens semelhantes.

Vale destacar que não são apenas os medicamentos pediátricos que podem causar problemas aos pequenos. Os fármacos mais envolvidos nos casos de intoxicação infantil são os mesmos que se encontram disponíveis nas residências e são tomados por adultos, revela Rosany Bochner, que sugere outro cuidado. “Os pais devem evitar tomar medicamentos na frente dos filhos pequenos, pois eles costumam imitar gestos e comportamentos dos adultos”, aconselha a pesquisadora. “O que acredito como solução é a informação aos pais e cuidadores”, ressalta Claudinei Santana. “Em primeiro lugar, os responsáveis precisam ser informados de forma clara e objetiva quanto aos riscos dos medicamentos, sem termos complicados e com a aplicação de técnicas para verificar o grau de compreensão das informações recebidas. Depois, a abordagem dos pais e cuidadores em relação às crianças e o medicamento também precisa mudar. Eles não podem apresentar o medicamento à criança como um doce, um suco, uma balinha ou uma sobremesa. Tais características ficam na memória da criança e em momento oportuno ela irá procurar o medicamento como se fosse algo interessante ao paladar. A cultura de como lidamos com os medicamentos precisa mudar muito”, sustenta o professor.

Representantes das entidades de saúde defendem embalagens de remédios com lacres ou travas de segurança para dificultar sua abertura pelas crianças. Nesse sentido, há tempos tramitam na Câmara Federal projetos que criam embalagens mais seguras. Um desses projetos determina a utilização da Embalagem Especial de Proteção à Criança (EEPC) em medicamentos e produtos químicos de uso doméstico que apresentem potencial de risco à saúde. “Adotar a EEPC, como já existe na Europa, EUA e Israel, é muito indicado para contribuir na prevenção das intoxicações infantis por medicamentos e produtos de limpeza. Um dos projetos mais antigos no Brasil (PL 4841) é de 1994 e teve como autor o ex-deputado Fabio Feldman, mas não conseguiu ser aprovado. Outros projetos similares foram criados, mas também não conseguiram adesão”, diz Rosany Bochner. O PL 4841 foi aprovado em 6 de abril de 2017 na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC ). Desde então, caminha a passos de tartaruga para sua aprovação final. A indústria já usa um tipo de lacre de segurança que, porém, pode ser facilmente rompido, lembra Claudinei Santana.

Os idosos também são potencialmente vulneráveis a casos de intoxicação por medicamentos. “Esse grupo de pacientes costuma tomar muitos medicamentos e necessita de acompanhamento. Cada médico precisa saber exatamente o que o idoso está tomando, de forma a evitar interações medicamentosas”, pondera Rosany Bochner. Claudinei Santana destaca que os idosos têm mudanças importantes na sua fisiologia como, por exemplo, a redução da capacidade de metabolização e excreção de medicamentos que poderão gerar intoxicações. “O farmacêutico é o profissional clínico com capacidade de reconhecer essas necessidades e encaminhar formalmente o paciente ao médico para ser avaliado quanto às suas alterações fisiológicas e à dose adequada.” Rosany concorda. “O farmacêutico tem um papel crucial na administração de medicamentos, pois é o profissional que mais entende de drogas e de suas interações. Ele deve orientar e tirar dúvidas dos consumidores sobre a administração dos medicamentos prescritos pelo médico e também nas compras de medicamentos isentos de prescrição.”

“Na verdade, tanto crianças como idosos são suscetíveis à intoxicação medicamentosa, pois podem apresentar um perfil farmacocinético diferenciado, que é o caminho percorrido pelo medicamento e o impacto que ele terá no corpo humano”, explica André Schmidt Suaiden. Para esse caminho ocorrer corretamente, o medicamento precisa ser absorvido no estômago ou intestino, ser metabolizado no fígado, distribuído na corrente sanguínea e eliminado pelos rins na forma de urina. “O que ocorre é que, muitas vezes, crianças e idosos têm essas funções comprometidas, causadas por desenvolvimento, no caso das crianças, ou alteração celular em idosos”, frisa o professor.

De forma geral, todas as pessoas acabam sendo vulneráveis à intoxicação por medicamentos se não forem corretamente orientadas, sendo que muitos casos ocorrem por erro de administração da medicação. “Farmacêutico é o profissional de saúde do medicamento. Ele deve se assumir como ator principal e não como coadjuvante, apenas vendendo e entregando o medicamento. Precisa sair da ‘caixinha’ e realmente pensar como um profissional indispensável, mostrando que é capaz de realizar procedimentos clínicos, como a atenção farmacêutica, acompanhamento de pacientes e monitoramento de doenças crônicas. Deve se apropriar de um papel de visibilidade social, mostrando à população que ela deve confiar nele”, assinala André Schmidt Suaiden.

Há uma recomendação da OMS para que o farmacêutico oriente o paciente sobre o medicamento durante, pelo menos, três minutos. “Informação e conscientização da população são armas importantíssimas para reduzir os casos de intoxicação medicamentosa. Considero bastante interessante o que recomenda a OMS, pois temos muitos casos de intoxicação por medicamentos decorrente do erro de administração”, afirma Rosany Bochner. Muitas pessoas desconhecem as contra-indicações do medicamento que vai consumir e sequer sabem das alergias que podem ter por determinada droga, mesmo as mais comuns, o que pode causar casos graves de intoxicações. “As pessoas conhecem mais sobre o funcionamento do celular do que as consequências do uso inadequado de um medicamento que está tomando, seja para uma doença aguda ou crônica. Elas precisam de esclarecimento para não utilizar os medicamentos de forma banal como tem ocorrido”, observa Claudinei Santana.

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