‘Células assassinas’ eliminam coronavírus do organismo, diz estudo

‘Células assassinas’ eliminam coronavírus do organismo, diz estudo

Pesquisadores suecos descobriram pessoas que testaram negativo para Covid-19, mas possuem células que reconhecem e matam o novo coronavírus. Estudo foi publicado na revista científica Cell e indica que sistema imune pode derrotar o vírus mesmo sem produzir anticorpos.

Os cientistas encontraram células do sistema imune de alguns indivíduos que tinham um tipo de ‘memória’ do novo coronavírus (SARS-CoV-2) e sabiam como atacá-lo. Estranhamente, essas pessoas não manifestaram sintomas, testaram negativo em exames sorológicos (que avaliam os anticorpos contra o vírus) e não produziram anticorpos contra a Covid-19. Alguns desses indivíduos que testaram negativo nos exames sorológicos tinham sido diagnosticados por exames de RT-PCR (que detecta a presença do vírus em si) meses antes.

Para fazer a pesquisa, como forma de comparação, os cientistas analisaram também amostras de sangue coletadas de outros voluntários no meio de 2019, que não poderiam ter sido infectados pela Covid-19. Curiosamente, algumas dessas amostras (28%) também tinham linfócitos T que reagiam ao Sars-CoV-2, algo que os pesquisadores dizem ser esperado, conforme revelou a Cell e foi reproduzido pelo jornal O Globo.

Isso ocorreu provavelmente por causa de infecções prévias por outros tipos de coronavírus, mais inofensivos, que circularam em anos anteriores. Entre os pacientes sem anticorpos, mas que cederam amostras de sangue recentemente, essa proporção foi maior, de 40% a 60%, possivelmente elevada em função da grande prevalência do novo coronavírus.

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Soldados T

As células em questão, chamadas de linfócitos T, são capazes de eliminar o novo coronavírus por uma ação chamada de ‘citotóxica’ (tóxica para outras células). “As células T de memória específicas para SARS-CoV-2 provavelmente serão críticas para a proteção imunológica de longo prazo contra Covid-19”, diz um trecho do estudo, segundo o Uol.

Cientistas já desconfiavam do papel importante dessas ‘células assassinas’, porque o nível de produção de anticorpos em pessoas egressas de infecções por Covid-19 geralmente cai. Pela primeira vez, porém, foram encontradas pessoas cujos linfócitos T ‘lembravam’ do Sars-CoV-2 (sinal de infecção prévia), mas que não estavam produzindo anticorpos.

O achado reforça uma noção crescente de que a imunidade de tipo celular – na qual determinadas células do sistema imune matam células contaminadas com o vírus – é crucial na resposta do organismo ao Sars-CoV-2. Nos casos mais extremos, o sistema imune conseguiria derrotar o vírus até mesmo sem produzir anticorpos, proteínas que atacam diretamente os patógenos, conforme outro trecho da pesquisa descrita pelo Globo.

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A pesquisa foi realizada pelo Instituto Karolinska, de Estocolmo, com 206 indivíduos da Suécia que tinham tido diferentes experiências relacionadas à Covid-19 – uns com casos leves; outros, assintomáticos; alguns com manifestações severas; e pessoas que não foram expostas e familiares expostos ao vírus.

Os pesquisadores afirmam no estudo que “muitos indivíduos com Covid-19 leve ou assintomática, depois da exposição ou infecção pelo Sars-CoV-2, geraram respostas duráveis e funcionais de células T de memória, não raro na ausência de resposta detectável de anticorpos”.

Eles comemoraram o resultado indicando que o estudo “sugere que a exposição natural ou infecção deve prevenir episódios recorrentes de Covid-19”, ao menos por um período de tempo. Os pesquisadores sugerem até mesmo que estudos que buscam saber a prevalência da doença na sociedade usando exames sorológicos podem estar subestimando o espalhamento da Covid-19.

O trabalho dos cientistas suecos aponta ainda algumas das proteínas do vírus que funcionam como ‘antígenos’, fragmentos de proteínas que o sistema imune é capaz de reconhecer. Na opinião do imunologista Ricardo Gazzinelli, da Universidade Federal de Minas Gerais, o estudo reforça a noção de que os linfócitos T são cruciais na reação à Covid-19, mas isso não significa que os anticorpos não sejam importantes.

“Quando você desenvolve uma vacina, o ideal é tentar induzir os dois tipos de resposta, a celular e a de anticorpos, de forma ampla”, afirmou o pesquisador ao Globo. “Um ponto crítico é identificar quais antígenos do Sars-Cov-2 estão sendo reconhecidos pelos linfócitos T desses indivíduos resistentes, porque achando isso você pode desenhar uma vacina com esses antígenos para testar. Nesse estudo eles já começam a olhar para isso”, concluiu.

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